quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"Gentilândia Sitiada", crônica de Pedro Salgueiro (Jornal O POVO em 28.09)

Estádio Presidente Vargas nos anos 40

 Faz três anos que voltei a morar na Gentilândia (capital do Benfica), já havia residido por sete anos aqui na época em que eu era estudante. Peguei nestes dez anos um amor pelo bairro, principalmente pelo charme de ser um reduto boêmio, de muita diversidade cultural. Um recanto da cidade que cheira a juventude, a movimento estudantil, a futebol, devido principalmente à presença da Universidade Federal do Ceará (e seus vários equipamentos, como Museu e Rádio Universitários, Casas de Cultura, além dos inúmeros cursos de humanidades), Escola Técnica Federal (que todo ano muda de nome e sigla), Ginásio de Esportes Aécio de Borba e Estádio Presidente Vargas (o charmoso e querido PV).


A pracinha da Gentilândia é o coração do Benfica, o local para onde tudo (de bom e de ruim) do bairro conflui... Tudo mais cedo ou mais tarde acaba sempre na pracinha: manifestações culturais e políticas e (naturalmente) seus diversificados lazeres.

Acontece que diferentemente de outros bairros, a população deste essencial reduto de Fortaleza é, em sua maior parte, flutuante. São os milhares de estudantes (professores e funcionários) da universidade, da escola técnica e de inúmeros colégios públicos e particulares, são ainda outros milhares de desportistas que em pelo menos duas vezes por semana invadem suas ruas, são centenas de boêmios que se espalham diariamente pelos infinitos bares.

Então a população do bairro não é somente a que reside (como eu e quase toda a minha família) nele, e sim uma multidão de moradores de outros sítios, que frequentam suas ruas de madrugada a madrugada nos sete dias da semana.

Outro fator fundamental para entender a quantidade de problemas que assolam o bairro e que o fazem ser hoje um dos mais violentos (em assassinatos e assaltos e distribuição de drogas) de nossa capital. Ele fica entre duas áreas pobres da cidade: o Jardim América (e suas diversas favelas) e os inúmeros becos da Marechal Deodoro (ambos redutos de muitos trabalhadores pobres, mas também de bandidos, traficantes, assassinos etc. etc.).

Pois bem, juntemos os pacatos moradores deste aprazível bairro, a enorme população flutuante de boêmios, estudantes, trabalhadores e desportistas que o frequentam, e temos o prato suculento e ideal para os (também) muitos que querem roubar, assassinar e distribuir drogas.

Em resumo: as autoridades não podem tratar um bairro com estas características como se fosse um bairro qualquer, não podem deslocar seus muitos agentes (de trânsito e de repressão) levando em conta apenas os números de seus moradores (e principais vítimas de tudo de ruim que acontece atualmente aqui).

Resumindo mais ainda (suas burras autoridades): este bairro não é somente este bairro, 90% dos frequentadores deste sítio são de outros locais, então a violência é também multiplicada por mil.

Cuidar do Benfica é cuidar de quase toda a nossa capital, a nossa querida loirinha desmiolada pelo sol.

***
O Benfica, a Gentilândia pedem socorro!!!!!!!!!!

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5 comentários:

Raymundo Netto disse...

Entrei no seu blogue, um movimento esperado, não é? rsrsrs

Seja feliz nessa sua investida intergalática, náutica e estrambótica. Putz, falei que nem o Nilto agora...

Abraço

Ronaldo Monte disse...

Com o honrozo privilégio de inaugurar os comentários do blog,comunico que daqui para o fim de outubro sai o meu livro de contos "O baú do anão". Quero lançar na Gentilândia, em novembro. Um grande abraço. Ronaldo Monte.

CARLOS VAZCONCELOS disse...

Pedro,
Gostei do blogue, gostei da crônica.
Parabéns!

Pedra do Sertão disse...

Olá, Pedro Salgueiro, até hoje não me conformo que a casa de nosso saudoso "Moreira Campos" virou estacionamento de shopping! O ar da pracinha da Gentilândia era (talvez ainda seja...) muito diferente. Vivi em Fortaleza uma época em que se andava por lá. Andávamos muito, pingando de bar em bar, como marca de estudantes universitários e era um passinho só para o Bosque de Letras! Abração. Araceli

Teobaldo Filho disse...

Predo, parabéns pelo Blog. O escritor é diferenciado no que diz respeito à sensibilidade com que vê as coisas, o mundo ao seu redor. Essa sensibiliade que nos falta para perceber as pequenas coisas do nosso universo é mais latente em vocês. Muitas vezes gostaríamos de dizer algo, mas nos faltam palavras, por isso os escritores são figuras diferentes e necessárias...

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