quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Música Popular Romântica", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO

                                                      (Genival Santos)


Claro que se pode conhecer bem um sujeito pelos seus gostos e manias; mas alguém menos simplista poderia argumentar que também se poderia entender qualquer um somente pelas coisas de que esse tal não gosta, odeia, faz desdém. Claro: pode-se ver uma pessoa (nunca tudo, ninguém nunca se deixa conhecer inteiramente, não é mesmo!?) por vários ângulos, diretos, indiretos, invertidos...

Gosto de filmes de caubói (ou cowboy, como preferem os esnobes) do tipo A, B e até C. Adoro seção da tarde, de preferência filmes de adolescentes na praia, amores água-com-açúcar, finais lacrimosos etc. e tal. Adoro cerveja, muito embora só tenha começado a beber aos 34 anos (os detratores insistem em afirmar que eu apenas quero compensar o tempo perdido). Sou louco pelos contos de Salinger, e já li suas “Nove Estórias” umas mil vezes. Adoro caminhar na praia de tardinha, mesmo que só tenha descoberto isso muito recentemente. Ah, adoro tanta coisa que passaria vários meses numerando sem esforço umas quinhentas. Havia esquecido essa que meus amigos não iriam perdoar, adoro meus amigos!, mas só os considero assim depois que eu tenha posto um bom apelido.
O que detesto também daria uma lista enorme: arrogância, desonestidade, barulho, axé-music, forró eletrônico, piada preconceituosa, camisa do Ceará (não seus torcedores), livros de auto-ajuda, comida sem carne, formalidades... Vou parar por aqui, pois não suporto pensar nas coisas de que não gosto, já basta ter que suportá-las quando elas aparecem.
Mas se tem uma mania que ninguém aceita entre meus gostares principais é o de que sou doidinho por um tipo de música que atualmente só toca em lugares suspeitos, anacrônicos cabarés no centro da cidade, um que outro bar de periferia: A nossa tão genuína e querida e gostosa e sensível Música Popular Romântica. Tenho a coleção de Lps, agora Cds e Dvds, dos queridos Genival Santos, Amado Batista, Bartô Galeno, Fernando Mendes, Wando, Aguinaldo Timóteo, Evaldo Braga, Roberto Muller, Nilton César, José Orlando, Carlos Alexandre, José Ribeiro, Raimundo Soldado, Fanquito Lopes (o “Índio apaixonado”), Lindomar Castilho e uma dezena de outros mais.
Antes que alguém diga que é apenas excentricidade, bem típica dos que são “metidos a artistas”, diria que essas foram as músicas que ouvi durante minha infância inteira, em rádios, irradiadoras de parques de diversões e circos. Então ouvir essa espécie de Música Popular Romântica, essa espécie de MPB do B, essa espécie de terapia para mal amados, sofredores de maneira geral, é fazer um passeio aos meus primeiros e melhores dias de vida.
Verdade que ouço baixinho, não por vergonha, mas para não incomodar os ouvidos sofisticados de amigos e vizinhos. Também nunca os rotulo de “Brega”, como tem feito a nossa classe-média mental, apenas para ter o álibi de os “curtir” impunemente entre risos e galhofas.
Continuarei ouvindo meus queridos (e famigerados) cantores românticos, como aquele vizinho mais antigo (que todos temos ou tivemos um dia), que nos domingos de manhã já acorda saudoso, limpando com uma flanela seus velhos discos, olhos fixos e lacrimejantes presos no infinito. Quando só é acordado lá pelas três da tarde com o grito de que o almoço está posto e apenas sua cadeira está vazia.

Um comentário:

Webston Moura - contatowebston@gmail.com disse...

Olá, Pedro!

Gostei dessa crônica sobretudo pelo fato de você revelar uma intimidade numa área que muitos escodem, esse gosto musical "underground". Pessoalmente falando, cresci ouvindo esses nomes. Não são minha preferência, mas hei de reconhecer que aí há vozes, letras e melodias muito mais poderosos que muito dessa tralha que hoje os indivíduos escutam em seus carros de luxo. Sobre esse gênero musical, há a verdade de que ele tem sido recuperado (seu valor artístico e histórico) e isso é chegar junto da verdade dos fatos. Agora ponha aí um disco do Lindomar Castilho e uma cerveja! Beba por nós todos!

Abraços!

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