quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

PARA EMBALAR JOHN CHEEVER (por Caio Fernando de Abreu)





Pode ser o som do Nouvelle
Cuisine, no meio da noite,
repetindo palavras douradas


Mais ou menos um ano atrás, me apaixonei por um disco. Ou melhor: por uma música de um disco: Forgetting, letra de Laurie Anderson para uma melodia de Philip Glass, em Songs From Liquid Days. Uma letra muito simples: com o som da chuva, um homem acorda de repente, no meio da noite, depois de ter sonhado com antigos amores. Sozinho no escuro de seu quarto, lembrando aqueles velhos amores, repete muitas vezes palavras como: Bravura, Gentileza, Claridade, Honestidade. Compaixão, Generosidade, Dignidade.

Um ano depois, agora, me apaixonei por um livro. Fazia tempo que não acontecia. Noutros tempos, já me apaixonei por um livro de J.D. Salinger, me apaixonei por Clarice, por Fome, de Knut Hamsum, Pergunte ao Pó, de John Fante, por Adélia Prado, pela Metamorfose, de Kafka, por A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, Belos e Malditos, de Scott Fitzgerald, ou Los Premios, de Cortázar. São livros (mas podem ser canções, filmes, quadros, peças e, antigamente, até pessoas) que você ama tanto que quer ficar morando dentro dele, dela. Quer ver toda hora. Absorve o jeito do outro, e esse jeito absorvido da coisa pela qual você está apaixonado, você fica aplicando no cotidiano, feito você fosse aquela própria coisa apaixonante. Que nos tira de nós, alarga.



Estou perdido de amor por O Mundo das Maçãs, de John Cheever, uma seleção de contos que Sergio Augusto fez, Paulo Henrique Britto traduziu e a Companhia das Letras editou. Leio em algum lugar que Cheever, morto em 82, era alcoólatra, drogado e, além do mais, tinha um caso com um de seus assistentes. O que mais justifica e encendeia minha paixão: felizmente, ele não era “normal”. Não era médio, não tinha medo. Esse não medo de Cheever transparece no que escreve: tudo tem uma grande piedade pelo humano. Seja esse humano bêbado, drogado, homossexual, ou apenas mediamente suburbano, como a maioria de suas personagens, inclusive nós (eu, pelo menos, sou tão suburbano neste cosmopolitismo brega). Você lê e sofre. Você lê e ri. Você lê e engasga. Você lê e tem arrepíos. Você lê, e a sua vida vai-se misturando no que está sendo lido.

                                                      (John Cheever)


Ler Cheever desse jeito, tão tomado de paixão, durante uma semana que comportou umas barras de morte, umas barras de medo, tão pesadas, trouxe também uma força assim: não, Caio F., você vai segurar, porque esse tal de Cheever aí não só segurou como criou sobre. E vamos lá. Então, lendo Uma Visão do Mundo, um dos contos do livro, ao chegar ao fim encontrei – adivinhem – nada menos que aquela letra de Laurie Anderson para Philip Glass. No conto, depois de pensar em seus amores passados, ouvindo a chuva um homem acorda no meio da noite – “então me sento na cama e exclamo bem alto, para mim mesmo: - Bravura! Amor! Virtude! Compaixão! Esplendor! Bondade! Sabedoria! Beleza!”. No disco brasileiro, Laurie não dá o crédito “inspirado em John Cheever”. No original, quem sabe, Mas a canção está lá, para quem quiser conferir, mais que mera coincidência.

Tudo isso só me prova que minhas paixões são semelhantes. Amo tudo que afunda a cara na lama da vida crua e consegue arrancar o belo desse mergulho. Todo temeroso, machucado, denso por dentro e cético por fora, saio de casa no sábado à noite para assistir ao Nouvelle Cuisine, no Espaço Off. E o som absolutamente cool desses cinco meninos de repente é justamente o som que eu escolheria para embalar as histórias de John Cheever. Tudo fecha, então, porque tudo é fechado, não deve haver espanto. Enquanto eles tocam My Funny Valentine, eu penso que continua chovendo. Acordo no meio da noite, assombrado por sonhos com velhos amores, e fico repetindo no escuro palavras como: Gentileza, Perdão, Sabedoria, Bondade, Paciência. O dia começa a amanhecer, quando sento aqui e começo a escrever todas estas coisas que também amanhecem.

Depois abro Adélia Prado e leio: “a vida é tão bonita/ basta um beijo/ e a delicada engrenagem movimenta-se/ uma necessidade cósmica nos protege”. Depois durmo, certo de que ainda há muitas histórias para serem lidas, para serem escritas, para serem lembradas. Até para serem vividas, quem sabe?
                                             (Caderno 2, OESP, 5 de agosto de 1987)

2 comentários:

Nathan disse...

Muito bom! Voltou com tudo não foi Pedro?!
Gostei muito da maneira que escreveu,muito bonito!
Um abraço

Gadelha disse...

Adorei!Que venham as histórias...

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