terça-feira, 8 de maio de 2012

EMMANUEL BOVE DESNUDOU A TRANQUILA DESGRAÇA HUMANA (por Amilcar Bettega)





Foi durante um período de férias em Fortaleza, na casa do meu querido e sempre atento amigo, o escritor Pedro Salgueiro, mas não lembro a circunstância exata, que ele me falou de Emmanuel Bove. Na verdade o Pedro não falou de Emmanuel Bove (1898-1945), apenas mencionou seu nome, assim de passagem, e, gentil como todos os cearenses que conheço, além de já ter me emprestado seu apartamento, no final da estadia ainda me ofereceu um presente inestimável para quem, assim como você, ama a literatura: um livro, no caso, Meus amigos, de Emmanuel Bove - e com esse livro a possibilidade de descobrir um autor raro, de altíssimo nível.



O adjetivo raro, aqui, cabe bem. O verbo descobrir também. E mesmo a maneira quase casual com que o nome de Emmanuel Bove foi inserido na nossa conversa, lateralmente, de passagem, como que por acidente.


Um pouco por conta de uma personalidade discreta e silenciosa, mas muito por sua literatura que não reivindica nada, que não prega nada, que não defende nada e que não conta com nada a não ser com ela própria, Emmanuel Bove tornou-se um dos maiores "escritores-que-não-muita-gente-conhece" da França.

Mesmo em um meio letrado, se você pronunciar o nome de Emmanuel Bove não é absolutamente certo que seu interlocutor vá saber de quem se trata.



Mas nem sempre foi assim, e já foi pior. Nascido em Paris, em 1898, filho de um imigrante russo meio aventureiro e inconseqüente e de uma luxemburguesa que trabalhava como doméstica, Emmanuel Bove alternou, na infância e adolescência, períodos de pobreza absoluta ao lado da mãe e do irmão com outros bem mais faustos junto à amante endinheirada do pai, com quem o menino Emmanuel teve uma forte relação de afinidade, não obstante todos os sentimentos de culpa que uma relação como essa pode gerar.

Com inclinações artísticas, essa espécie de mãe adotiva teve um papel importante na formação do futuro escritor.


Emmanuel Bove publicou seu primeiro livro - justamente o Mes amis - em 1924, por intermédio de Colette, que leu um conto que ele enviara ao jornal Le matin e procurou o jovem escritor para saber se ele tinha mais textos e se queria publicar na coleção que ela dirigia na Éditions Ferenczi. O sucesso do livro foi imediato e Bove conquistou admiradores do porte de, entre outros, Max Jacob e Rainer Maria Rilke, que fez questão de conhecê-lo durante uma estadia em Paris.

Meus amigos é um "romance" que, através de quadros independentes, vai dando conta das errâncias por uma Paris sem nenhum glamour de um anti-herói abúlico, Victor Bâton, um solitário e resignado miserável - material e moralmente - em busca de amizade, amor ou companhia, ou simplesmente em busca de uma forma de existir em um mundo que lhe diz com insistência que não há lugar para ele.



Os capítulos que constituem o livro relatam os encontros e desencontros de Victor Bâton com personagens tão solitários e miseráveis quanto ele. Não há intriga, não dá para dizer que há uma evolução romanesca (e por isso as aspas algumas linhas acima), o que se lê é o lento desnudamento da condição humana, sem revolta, sem denúncia, uma espécie de resignação triste mas ao mesmo tempo sem aflição, onde tudo se acomoda na fatalidade de uma tranqüila desgraça.

Através de um estilo objetivo, de frases curtas, Bove constrói uma prosa minimalista, pobre até, mas contraditoriamente rica em detalhes que na aparência são insignificantes mas que ganham relevância por meio de uma obsessão descritiva e pelo enorme poder evocatório dessas minúcias insólitas, risíveis, e profundamente humanas que o autor recupera do cotidiano como bem poderia fazer um dos seus personagens diante de uma lata de lixo na rua: escarafunchá-la, para recuperar o que sobra da atividade cotidiana dos homens, o resto, o dejeto.



Depois de Mes amis vieram muitos outros romances e contos (Armand, C´urs et Visages, L´Amour de Pierre Neuhart, Une fugue, La coalition, Henri Duchemin et ses ombres - a lista é longa, beirando uns trinta títulos), mas quando Emmanuel Bove morreu, em 1945, seus livros quase já não eram mais publicados e seu nome foi caindo num ostracismo incompreensível, a ponto de o poeta Christian Dotremont mandar imprimir e fazer circular, em 1971, um curioso panfleto no qual dizia que era necessária a leitura das obras de Bove, que seus livros se tornavam artigos em extinção, e finalizava conclamando todo mundo a assediar editores e livreiros para disponibilizarem a obra de Emmanuel Bove ao público.

Raymond Cousse - autor, em parceria com Jean-Luc Bitton, do único estudo biográfico sobre Bove, publicado em 1994 - especula que uma das causas do esquecimento do escritor está no fato de que ele não era um intelectual ativo no palco dos debates ideológicos, não defendia causas extra-literárias, não estava ligado a nenhum grupo com certa orientação política ou estética. Não que fosse alguém apolítico, sem ideologia nem tomadas de posição. Em 1940, por exemplo, mesmo tendo algumas solicitações recusou-se a publicar na França ocupada. Mas nunca fez bandeira disso, nunca posou de escritor engajado para chamar a atenção para o seu trabalho. Na literatura, no seu trabalho, o caminho de Bove sempre foi solitário, único. E sem dúvida a marginalização é um pouco o preço da sua independência e do seu individualismo.



Até que no final dos anos 70 e início dos 80 novas edições começaram a aparecer timidamente no mercado, oferecendo a oportunidade da "redescoberta" desse autor que hoje conta com leitores fervorosos, ainda que bem pouco numerosos. Peter Handke é um desses leitores, que se tornou tradutor e um grande divulgador da obra de Bove na Alemanha, único país que conta com uma boa parte da obra de Bove traduzida. No Brasil, até onde eu sei, apenas Mes amis foi traduzido, em 1987, pela Companhia das Letras (tradução de Maria Lúcia Machado). Pouco, para o que escreveu Emmanuel Bove. Mas é melhor do que nada, e uma bela porta de entrada para quem quiser descobrir uma obra e um autor raros.


Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Um comentário:

Webston Moura - contatowebston@gmail.com disse...

Beleza, Pedro! Eu, até aqui, nunca ouvira falar de tal escritor!

Abraços!

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