quarta-feira, 13 de março de 2013

ANTENADO (Pedro Salgueiro para O Povo)


Mesmo me considerando um sujeito medianamente “antenado”, de quando em vez me deparo com alguma informação que me deixa de “cabelo-em-pé” (não riam, é apenas uma expressão, como os hífens denunciam), tal o ineditismo da referida palavra ou frase em meus já peludos ouvidos (também o mesmo estranhamento se dá quando escuto alguém se referir a determinados cantores, artistas em geral, e até mesmo aos famosos por quinze minutos que um dia Andy Warhol nos preveniu).
Quando aqui cheguei do interior, inocente puro e besta (como bem cantou Raulzito), uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o uso de expressões, digamos, “moderninhas”; os garotos de minha idade eram “descolados” pra chuchu. E mal entrei em sala de aula, um de meus primeiros colegas me sapecou logo um “Fala aí, Barão!”. Quase saí correndo: eu que era no máximo versado em “Diz aí, bicho!”.

Na época, início dos anos 1980, as coisas se passavam lentamente, demoravam uma eternidade (que conclusão filosófica, não é mesmo!?, deve ser a ressaca do fim de semana) para caírem em desuso; também as gírias e expressões duravam séculos, dava tempo de a gente ir se acostumando, fazendo a ruminação devagarinho, até as oiças se renderem ao termo falado “a-torto-e-a-direito” pela moçada.


Mas a velocidade internética foi trazendo a reboque uma enxurrada de neologismos, palavras da moda de todos os feitios e gostos. E o que é pior (ou melhor?): passando com uma velocidade espantosa; mal aprendemos e já são velhas. Minha filha mais nova é quem me denuncia o anacronismo dos termos que teimo em usar: “Ô, pai, ninguém fala mais assim!”; em seguida dá sua risadinha irônica. Já meu filho, mais casmurro, usa quase nenhuma modernidade no linguajar, diferentemente da irmãzinha, não se rende facilmente a novidades.
Não faz muito tempo sentia verdadeiros calafrios ao ouvir o indefectível “tipo assim” em meio a qualquer frase de qualquer idiota de qualquer idade. Um dia, para espanto meu e da amiga com quem estava falando, sapequei, num deslize fatal, no meio de uma frase comum o odiado termo. Parei a conversa, balancei constrangido a cabeça e esqueci completamente o que estava dizendo.


Mentalmente resolvi desistir de me estranhar (e de me espantar, principalmente) quando escuto qualquer barbaridade adolescente em forma de gíria. Engulo fundo, dou até um rizinho de triunfal resignação (e superioridade, claro): eu que nunca fui afeito a purismos de qualquer espécie me rendo finalmente ao império fatal das expressões populares. Eu, não mais que ninguém, que sou dos “cafundós-do-Judas”, de onde o “vento-faz-a-curva”, filho de um singelo sapateiro “lambe-sola”, tenho mesmo é que ser popular. Ora, pois-pois!


Minha “santa-paciência” durou até a semana passada, quando, ao trafegar desajeitadamente com meus mais de noventa quilos pelos corredores estreitos de uma livraria, resolvo pedir desculpa a uma freguesa pelo esbarrão involuntário.
— Me desculpe, senhora!
Então ela se saiu com essa pérola do linguajar televisivo, digno das piores misturas do axé-music com humor-de-pizzaria e mais o famigerado forró-eletrônico com pitadas de diálogos do BBBesta, com os quais o inferno está plenamente entupido:
— Que nada, “de boa”! — Diz a magrinha leitora, com cara de professora universitária.

Imediatamente o meu “versículo” esquerdo deu um nó no direito, subiu até a garganta quase me sufocando. Pensei em respostar na “bucha”: “De boa” é o cascalho, minha senhora!
Mas me controlei, respirei fundo e saí da livraria, me esquecendo até do livro que andava procurando.



* Crônica originalmente publicada no jornal O Povo.

Um comentário:

Ilton Paiva disse...

Realmente, há algumas gírias difíceis de aceitar. Ainda não me acostumei a ser chamado de "tio" por alguns "aborrecentes".

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