quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NENHUM DE NÓS (Pedro Salgueiro para O POVO)

(André Kertész) 

Quantos carros neste momento atropelam, arrastam, esfolam alguém que está vivo? E em quais lugares do mundo acontece tal fato neste exato instante? Todos tão iguais, tão diferentes — a velhinha morta ao atravessar a rua para comprar fósforos, uma criança que parou sua alegre corrida atrás da bola fujona, um homem forte colhido na linha-férrea depois de ter recebido todo seu salário, a família que foi perder dois de seus membros na saída triunfal de um feriado na praia, os dois jovens esmagados em plena parada de ônibus enquanto namoravam — todos no mesmo instante e em todas as partes do mundo: tão diferentes e tão iguais.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Das Vantagens de Ser Bobo (Clarice Lispector)

     (Clarice menina, ainda no Recife)



Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PECHISBEQUE

    (André Kertész)

Uma nova revista vem surgindo para fazer companhia à leva de boas publicações que existem hoje no Ceará (quem ainda não deu uma lida que seja nas revistas Aldeota, Arraia Pajeurbe, Canto de Iracema, Caos Portátil, Corsário, Espiral, Mambembe, Para Mamíferos, Pindaíba e várias outras? Sem falar nas mil e uma que circulam na internet, muitas vezes desfarçadas de blogs!?).
A nova PECHISBEQUE vem capitaneada pelos jovens escritores Edílson Pereira, Madjer Pontes e Nathan Mattos, que prometem outros números, com novos (novíssimos!!!!) escritores...
Mas, sem o ranço dos que se encastelam em panelinhas geracionais, vêm buscando diálogos com as diversas gerações que atualmente fazem a literatura em nossa terrinha.
Dêem uma olhada nela aqui, depois divulguem entre os amigos:



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O QUE NÃO ME FALAM... (de Pedro Salgueiro para o jornal O POVO)


(Dalton Trevisan e o artista plástico Poty bem jovens) 

O mestre Dalton Trevisan (o mais recluso e misterioso escritor brasileiro) costuma escrever referências autobiográficas camufladas em seus contos: no meio de um diálogo aparentemente banal, não raras vezes no próprio título da história, ou mesmo em “orelhas” não assinadas de seus primeiros livros, ele dá pistas de suas leituras, de suas fontes históricas e literárias, até de seus métodos para apreender suas famosas narrativas, de como as escreve, e não raramente em frases cheias de ironias e “cascas de bananas” que só quem conhece muito bem sua obra vai decifrando aos poucos.

MIA COUTO: Murar o medo

(Mia Couto)

Temos vivido cada vez mais em Cidades de Muros (como chama a antropóloga Teresa Caldeira no seu importante livro sobre Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo), em Fobópoles (para usar a expressão do brilhante geógrafo Marcelo Lopes de Souza em livro homônimo, de 2008, sobre a organização da cidade em torno do medo, implicando a consequente militarização da vida urbana), em distopias urbanas que vão se tornando reais, pautadas pela hipertrofia dos muros da segregação socioespacial, do medo, do vigilantismo e dos aparatos de repressão (oficiais, não-oficiais ou um misto de ambos, como fica claro no caso das milícias no Rio de Janeiro).Nesse sentido, em tempos de discussão sobre a presença da PM nos campi universitários (da UnB e da USP, em especial, devido a acontecimentos recentes), é valiosa para o debate a contribuição desta excelente palestra de um dos melhores escritores vivos da língua portuguesa, Mia Couto:“Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. (…) Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de ‘eles’”.Em outras palavras, o caminho proposto pelo escritor moçambicano, assim como por Teresa Caldeira e por Marcelo Lopes de Souza, consiste em apostar na construção do direito à cidade.
Eis o texto da íntegra dos seus sete minutos de fala (retirada daqui):

O QUE PENSO DO FACEBOOK (por Theófilo Silva)

  Reprodução


Com certeza nenhum dos brinquedos criados pela revolução digital teve um número de adeptos nem fez um sucesso tão grande quanto o Facebook. O Site veio para resolver as frustrações de todos e acabar com a figura do anônimo na multidão. Agora todo mundo é artista, com direito de mostrar a cara e ter a vida alardeada. O desejo de ser amado – principal necessidade do ser humano – está agora saciado. Diga o que pensa, sente, ama, odeia, enfim, conte sua vida para todo mundo. Diga tudo, menos a verdade.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Sertão Kafkiano de Pedro Salgueiro (em "Inimigos", por Alfredo Monte)



“Foi assim de repente, quando menos se esperava (em plena tarde morna) o sol tornou-se pálido, para sumir logo em seguida. O povo ainda não havia acabado de se assustar—ouvimos no meio da escuridão um bater de asas atravessando o vilarejo, como se um bando de pássaros saísse em revoada. Um pouco antes de os moradores da vila abandonarem suas casas em grande alvoroço, os bichos já alarmavam o acontecido: galinhas cacarejavam, galos cantavam em desespero, porcos fugiam pelas ruas atropelando as pessoas…

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O MUNDO COBRETO DE PENAS (publicado no jornal O POVO em 23/11/11)


O sujeito vai envelhecendo e, crente de que a velhice por si só vai lhe dando sabedoria, passa a criar para si inúmeras (e inúteis) teoriazinhas. Uma delas, e das mais bestas, me assegura que os amigos e familiares se dividem em dois grupos distintos e opostos: O dos que adora o fim de ano – são os “puros de espírito”, os que tiveram uma infância feliz, os que sentem saudades de tudo (especialmente da meninice); estes mal veem chegar o novembro e já adquirem um estranho brilho nos olhos, riem (e choram) por qualquer coisa, ficam mais pacientes e ternos, passam a se preocupar com coisas bobas, como lavar o cachorro, fazer listas de presentes. Mas não só isso: revivem o ano todo de modo mais otimista: fazem balanços, estilam promessas, enfim, escrevem de letra vermelha na agenda frases edificantes que sugerem a si e ao mundo que se tornarão pessoas melhores e mais felizes. O segundo grupo detesta qualquer rito de passagem, seja ele religioso ou mesmo o da mera marca do calendário – são os de “almas pesadas”, os que carregam nos ombros o peso do mundo, os que têm aftas no coração: estes só veem interesses comerciais nas mil luzinhas de Natal em cada janela de subúrbio, apenas vislumbram hipocrisias nos cumprimentos risonhos e nos apertos de mão entre vizinhos e colegas de trabalho: repassam em suas mentes as infinitas mazelas do ano que passou, as inúmeras tristezas que carregam no coração, as matrículas do colégio dos filhos, o negrume que a luz deixa por trás de qualquer objeto.

E para tornar mais baratas as muitas teoriazinhas que me povoam a desocupada cabeça chego rapidamente à conclusão de que o mundo se divide entre os otimistas e os pessimistas.

***

Entre os bobões românticos e os chatos realistas.

***
Entre os Fabianos e as Sinhás Vitórias. Entre as Cachorras Baleias e os Soldados Amarelos*.


* Referências a personagens do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que inicialmente se chamaria O Mundo Coberto de Penas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

SERTÃO (Pedro Salgueiro para O POVO, dia 09/11/11)


 (Tamboril vista da Igreja de Sto. Anastácio)

"Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar"
Patativa do Assaré/Luiz Gonzaga – Triste Partida

Fui, sou e serei apenas um matuto exilado na cidade grande. Vim aqui apenas para sobreviver, terminar os estudos, ganhar a vida, criar os filhos, como muitos irmãos que foram para o Norte da borracha, para o Oeste desbravar fronteiras, para o Sul futurar sustento.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os caça-fantasmas (por Nélson de Oliveira)


“Correio Braziliense, domingo, 26 de agosto de 1984. Engenheiro é encontrado morto. O engenheiro e escritor Samuel Rawet, de 56 anos, foi encontrado na noite de sexta-feira morto em sua residência, em Sobradinho, vítima de aneurisma cerebral. Segundo o laudo médico, Rawet já estava morto há quatro dias.” Esse fragmento de uma página policial e outros comentários registrados de maneira apaixonada estão na Rapsódia a Samuel Rawet, do Ezio Flavio Bazzo. Detalhe: o Ezio não conhecia quase nada do engenhoso engenheiro, quando sem mais nem menos decidiu rastrear o paradeiro do seu túmulo desaparecido. A investigação durou três meses. A investigação rendeu dezenas de anotações, anedotas, citações, divagações, rápidas entrevistas, recortes de jornal. Reunidas, essas anotações, anedotas, citações, divagações, rápidas entrevistas e esses recortes de jornal transformaram-se num livro de quase cem páginas. O porteiro do prédio onde Rawet morou antes de se mudar para a casa de Sobradinho: “No último ano em que viveu aqui, já estava completamente nervoso. Atirava ovos pelos corredores, falava sozinho e parecia muito agressivo. Devia ter hemorróidas, pois suas calças andavam sempre sujas no traseiro.” Dona Esmeralda, proprietária da casa onde o escritor foi encontrado morto: “Estava sentado no seu pequeno sofá, com uma tigela de sopa nas mãos. Quando os bombeiros arrombaram a porta e o viram, ficaram surpresos com a quantidade de velas e de pacotes de sopa Knorr espalhados pela casa.” Não resta dúvida. A história a seguir é a de um fantasma. E de seus caçadores. De um fantasma que teve o azar de desencarnar no mesmo instante que o do Truman Capote. Em vez do merecido Show de Samuel, tivemos na tevê e nos grandes jornais apenas o Show de Truman.



ABRIR MÃO (por Ronaldo Monte)


Num gesto do mais autêntico autoritarismo, minha médica mandou a atendente medir a circunferência da minha barriga e tomou a decisão unilateral de me decretar obeso. Claro que protestei veementemente contra o reconhecimento científico do meu visível arredondamento. Mas no fundo eu já vinha achando que estava na hora de abrir mão de alguns prazeres para poder voltar a encarar sem medo a minha parte do guarda-roupa. Além disso, já andava chateado com a dificuldade em executar certos movimentos, fazer um mínimo de força, sustentar o peso de alguns objetos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O TRÁGICO FIM DE MUAMAR KADAFI (por Theófilo Silva)



Poucos líderes do oriente odiaram e trabalharam tanto para destruir o ocidente quanto o ditador da Líbia Muamar Kadafi. Os sofrimentos que a humanidade passou, causados pela destruição da economia mundial, liderada por ele, em 74 e 75, com o chamado choque do petróleo, foram semelhantes ao de uma guerra. Mas pouca gente sabe disso.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Navegando contra a corrente (de Pedro Salgueiro para o jornal O POVO, 26.10.11)







Em termos de tecnologia eu estou sempre, no mínimo, dez anos atrasado. De início reajo da pior maneira possível às mudanças: acho uma droga qualquer aparelho novo que mude algum uso ou costume meu. Sou um sujeito reacionário por natureza, afeito à inércia, e defensor incansável “do mesmo sempre”.

Só mudo à força!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Personal person (por Ronaldo Monte)


A coisa começou com a invenção do personal training. Ser uma celebridade e não ter o seu personal training era quase um pecado mortal. Como eu tenho uma propensão natural para a maldade, acho que isso foi invenção da mulher de algum endinheirado que descobriu uma forma segura de descolar uma grana para o seu jovem e atlético amante. A partir daí a moda pegou e começaram a aparecer as mais diversas variações de assistência pessoal. Tem o personal care, destinado ao consolo das senhoras da terceira idade. Tem o personal wear, para sugerir as esquisitices que as dondocas devem usar em situações específicas. Tem até o personal dog, que não é exatamente um cachorro de estimação, mas um cuidador de lulus e totós das madames que não têm mais tempo além do que gastam no cabeleireiro (personal hair, eu suponho) e na academia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando eu crescer


 (Ruy, Virna Teixeira e Eduardo Jorge)



O Ruy é daqueles sujeitos que ninguém pode dizer que o conhece direito. Arredio à fama fácil e nociva da província, se esconde em seu castelo da Aldeota Velha, em sua redoma à prova de mediocridades.


Alejandra Pizarnik


FIESTA

he despleado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujé el itinerario
hacia mi lugar al viento.

Los que llegan no me encuentran.
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para transmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacíos.

FESTA

tinha estendido minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o itinerário
até meu lugar ao vento.

Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E tinha bebido licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

(tradução de Lílian Gordon, revisada por Carlos Besen. Retirado do blog://meldomelhor.blogspot.com//)

* Quem quiser ler mais algumas traduções da poeta argentina (inclusive uma da cearense Virna Teixeira) favor ir à página http://sylviabeirute.blogspot.com/2010/09/alejandra-pizarnik-poemas-poesia.html

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O POETA EVERARDO NORÕES TRADUZ ROBERTO ARLT




Engana-se quem pensa que o new journalism foi inventado nos Estados Unidos em meados do século XX. De fato, seu criador foi Xenofonte, nascido na Grécia, quatro séculos antes de Cristo. Anabase, relato vivido, antes de ser história, é reportagem. Assim sugere a crônica de Roberto Arlt, publicada em janeiro de 1942, bem como a introdução ao livro de Xenofonte feita por Carlos García Gual,  conhecido escritor e helenista espanhol.
Anabase é um de meus livros preferidos e este texto de Roberto Arlt é o melhor convite à leitura do clássico grego.



Anabase ou A retirada dos dez mil

Roberto Arlt

Quatrocentos anos antes do nascimento de Cristo vivia em Atenas um jovem de boa família. Como seus pais eram ricos, sua criação foi esmerada. Quando maior, recebeu lições dos filósofos e, finalmente, converteu-se em discípulo de Sócrates.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CONTO DE RUY VASCONCELOS

Poucos na rua sabem dele

Yaacov Agam, 1961


O Eremita

Perdeu os pais e a filha. A mulher, os sócios, a casa de praia. Uma das vistas para o mar. Uma das vistas. O hábito de sorrir.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ONETTI NÃO É PARA AMADORES

(Onetti em Madrid, em sua possição predileta: deitado e entornando garrafas de vinho)

 

Onetti chegou muito tarde ao Brasil, para dar uma idéia precisa seu romance fundamental (o preferido do próprio autor e no qual ele cria sua famosa cidade de Santa Maria, lugar mítico-geográfico que um dia ele disse ser um cruzamento de Buenos Aires com Montevidéu), A Vida Breve (Editora Planeta, 2004, tradução de Josely Vianna Baptista), só chegou por aqui 50 anos depois de lançado em espanhol.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"Envelhecer", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO (12.10)



Deus (ou a natureza, ou seja lá no/em que ou quem acreditemos) nos dá a sabedoria de irmos vivendo sem pensar muito no nosso inevitável envelhecimento. Na verdade não nos preparamos para essa complicada fase da vida (hoje tão eufemisticamente nomeada). Vamos indo rio abaixo (ou acima, quem sabe?) meio que ao sabor da corrente e do vento. Às vezes de canoa, outras no duro nado de peito. Mas verdade que dia menos noite nos deparamos com a “idade” chegando: uma dorzinha nas costas, um porre que demora mais do que de costume a passar, aquela torção de tornozelo que se curava por si dois dias depois do joguinho de futebol e que agora nos maltrata por meses.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Sânzio de Azevedo de Gaveta", de Pedro Salgueiro.

  
(Foto de Francisco Viana, jornal O POVO)

Conheço Sânzio de Azevedo desde a década de 90 do século passado. Vi-o pela primeira vez no lançamento do livro Moreira Campos em quadrinhos, organizado pelo mestre Geraldo Jesuíno, no Salão Nobre da reitoria da UFC. Trocamos conversas e livros e vamos construindo uma amizade que espero seja para sempre.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

"Escritor Cotonete", por Pedro Salgueiro (6.10)



Um dos fatos que me fazem acreditar que estou ficando irremediavelmente mais velho é a quantidade de jovens escritores que me pedem para ler seus originais de livros e, claro, para dar minha modesta opinião sobre suas criações literárias. No início estranhava um pouco, dava a desculpa de que não era especialista nem nada, que mal sabia avaliar os meus minguados continhos etc. e tal. Mas com a insistência dos jovens colegas de ofício fui que fui aceitando ler e avaliar e meter o bedelho em algumas coisitas que achava de mau gosto ou fora do lugar, mas sempre com o pé atrás: afinal, quem sou eu para julgar uma pretensa obra de arte? Sequer fiz uma faculdade de Letras, sou um autodidata em tudo na vida, minha leituras são por demais anárquicas e só obedecem aos meus gostos pessoais. E além do mais sei, por experiência própria, que todo mundo é um pouco vaidoso e que no fundo não aceita bem uma interferência externa, principalmente se for negativa, mesmo que a procure.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"Gentilândia Sitiada", crônica de Pedro Salgueiro (Jornal O POVO em 28.09)

Estádio Presidente Vargas nos anos 40

 Faz três anos que voltei a morar na Gentilândia (capital do Benfica), já havia residido por sete anos aqui na época em que eu era estudante. Peguei nestes dez anos um amor pelo bairro, principalmente pelo charme de ser um reduto boêmio, de muita diversidade cultural. Um recanto da cidade que cheira a juventude, a movimento estudantil, a futebol, devido principalmente à presença da Universidade Federal do Ceará (e seus vários equipamentos, como Museu e Rádio Universitários, Casas de Cultura, além dos inúmeros cursos de humanidades), Escola Técnica Federal (que todo ano muda de nome e sigla), Ginásio de Esportes Aécio de Borba e Estádio Presidente Vargas (o charmoso e querido PV).


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Minha mãe faz 70

Dona Eugênia (Dona Geni) e Ana Júlia, minha filha



"Amor de mãe é mais perigoso para a humanidade do que a Bomba H" (Millor Fernandes)


Minha mãe tem mil e dois defeitos, todos típicos defeitos de mãe.

Acorda cedinho, compra pão, faz o café e leva para a filha preguiçosa. Corre e vai fazer ginástica com os bombeiros. Volta e arruma a sala e varre a calçada e costura na cabeça as primeiras peças do almoço.

Conversa com a sombra, junta as folhas e as falas da vizinha.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Prorrogação Pessoal do Estado Oblíquo (Ruy Vasconcelos)







para Victor da Rosa

ainda zero a zero
é a final, estádio cheio
você, ponta-de-lança
de raro elenco,
aos quinze do segundo tempo
segue tragando palavrões
no metro, pelo capim
sob um sorriso discreto
até bater nas mãos do
volante de contenção convocado,
enquanto ouve o urro da galera
para o professor:
“burro, burro”, e

passa o resto da vida
saindo daquele gramado,
o filme, na cabeça, a repetir
tudo o que você teria jogado
naquela meia-hora sem fim.
que vida não é assombrada
por um calvário assim
num lance ou noutro
nem que por um quarto
de hora escroto?


_____________________________________-

"Inimigos", por Ieda Magri


Inimigos (Contos)
Pedro Salgueiro
Editora 7 Letras






"Inimigos*, de Pedro Salgueiro, é uma das publicações da Editora 7 Letras, que está com seu site renovado e é uma das poucas a investir em escritores iniciantes. Não é o caso de Pedro Salgueiro, premiado em vários concursos nacionais e internacionais; este é seu sexto livro.

Casimiro Côco

Mamulengos
 
 
Na virada dos 60 pros 70, menino lá nos Inhamuns só jogava bola. Minto: reinava de bola, bila, carimba, trisca, triângulo, esconde, arraia e mil brincadeirinhas mais; TV só duas e não dava pra traquina pobre, só na metade dos 70 fomos assistir Jerônimo, Zorro, Batman, Rex nos ladrilhos frios do Coronel Zé Jorge. De quando em vez, já cansado de fazer macaquinhos em dedos finos e dar leques e cascudos nas cabecinhas comidas de piolho e sol, o senhor de todas as terras da região pedia à Preta Zefa uma lata d’água, engolia a metade, gargarejava a outra e cuspia um jato longo na platéia, que nem piscava...
 

VER-TE

Nature forms.Pente de Vênus é uma concha de terminações pontiagudas, apelidada assim pelos pescadores por se assemelhar a um pente. A essa concha se atribuem poderes misteriosos, pois a mesma aparece e desaparece sem explicação ou vestígios.More information on the first page.
Pente de Vênus




vertente
um mar
de gente
um pente
rente

a me decapitar


__________________________

sábado, 3 de setembro de 2011

O sono e o sonho



Sempre dormi muito tarde. Conto nos dedos as vezes (geralmente estando doente ou depois de uma farra durante o dia) em que dormi antes da meia noite. Minha mãe afirma que quando eu era menino passava a madrugada inteira andando pelos terreiros com o velho rádio de casa, ouvindo notícias dos lugares mais distantes. Geralmente ela tinha que desligar o aparelho, que chiava junto comigo na redinha encardida estirada na sala da frente, já quase de manhã.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Insônia



Começo de madrugada. Cachorros ladram. Um burburinho chega da vizinhança. Agora um vento frio entra pela clarabóia. De quando em vez um galo canta, e espera a resposta dos outros. Um soluço corta o silêncio na casa ao lado: alguém chora um antigo amor? um pai lamenta o destino da filha? Ao longe uma sirene, bem mais distante um sino toca. Seria já manhã? Ou todos os ruídos da noite confluíam para aquele quarto simples de subúrbio: todos os lamentos perdidos, súplicas vãs, soluços de arrependimento ecoavam pelas paredes, farfalhavam entre as folhas da acácia, resvalavam nas frestas da persiana — um milhão de minutos pingava no relógio da sala: os rostos dos familiares mortos ganhavam uma nitidez surpreendente. Outro galo confirmava a madrugada, a mesma madrugada de outras épocas, como aquela em que amarraram o bêbado Napoleão no centro da praça — merecido castigo por seu misterioso crime — quando se fecharam todas as janelas: menos uma, logo aquela... a culpada de tudo. Um grilo agora eternizava a madrugada, fazendo com que a manhã fosse uma esperança perdida, um sonho que nunca se realizaria.

________________________________
Publicada em O Povo Online

Uma luz vermelha no bazar



Há mais de três anos um programa de entrevistas e lançamentos de livros (idealizado pelo grupo de leitura Abraço Literário e executado pelo escritor Carlos Vazconcelos) vem mapeando os escritores cearenses com uma competência extraordinária. Todas as últimas terças-feiras de cada mês na Galeria do Teatro Sesc Emiliano Queiroz (Av. Duque de Caxias, 1701) um jovem poeta, uma escritora já consagrada, um teatrólogo de valor, um estudioso da literatura, estará sendo minuciosamente entrevistado pelo competente mediador.

Mudanças




De vez em quando, e sem o menor motivo, chego a alguma conclusão totalmente inútil; distraído pensando sobre um assunto qualquer, um contratempo no trabalho, a final do campeonato de futebol, certa conversa com um amigo, e de súbito me baixa um pensamento vadio – se desprende não se sabe de onde e vem à tona: – Mudo bastante de residência, a cada ano o endereço é outro, a vizinhança nova.

Escritores




I - Esses viventes estranhos, metidos a querer saber de quase tudo, a ser “antenas da raça”. São seres falíveis, feito quaisquer unzinhos; cheios de defeitos, pululam por aí emitindo opiniões sobre o planeta e arredores. Dariam uma enciclopédia em cem volumes todas as previsões, dicas e besteiras que proferiram pelos tempos afora.