quarta-feira, 26 de setembro de 2012

DOM AIRTON DAS PERNAS FINAS (Pedro Salgueiro para O Povo)


(Airton Monte posando para a revista Para Mamíferos)

Nosso cronista Airton Monte tem sido tratado com bastante reverência, seriedade e pompa, advindas, claro, de sua cruel doença e lamentável morte. Aliás, como toda morte deve ser, sim, tratada. Mas me pego imaginando ele presente em seu velório, solenidade de cremação, missa de Sétimo Dia, escondido por trás de todos, rindo de toda aquela solenidade, com o traquino riso fácil que era muito dele: do escárnio de quem ria de tudo, de quem “gozava” do mundo, de quem “mangava” de todos.

Não, eu não fui seu amigo íntimo, nem seu camarada-irmão, muito menos tomei homéricos porres com ele em seus idos tempos de Estoril, também jamais passeei em sua companhia pela velha Iracema de todas as saudades. Sou de uma geração posterior. Quando comecei a rabiscar minhas primeiras letras, fazia muito ele tinha deixado de escrever contos. Acabara de assumir a página diária d’O POVO que havia sido de seu grande amigo Rogaciano Leite Filho. De lá pra cá, o tenho lido quase que diariamente, a ponto de sentir saudades quando ele tirava férias: pegava-me automaticamente indo à sua página toda manhã.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

BULCÃOZIM (por Pedro Salgueiro para O Povo)


Não lembro bem onde conheci o escritor Manuel Soares Bulcão Neto (e se não me engano esta é a primeira vez que pronuncio seu nome assim, completo, e também que o adjetivo de escritor), se na casa da amiga Ana Miranda, se no nosso covil barulhento do Assis da Gentilândia. Lembro, sim, que com meia hora de conversa já parecíamos amigos de infância, tamanha era a capacidade do nosso novo amigo de nos deixar completamente a vontade.
Foi, sem dúvida, a pessoa mais sem “frescuras” que conheci, mais sem “burrocracias” para os nefandos protocolos da vida. De início descobrimos um traço em comum: ambos “perdiam o amigo, mas não perdiam a piada”. Éramos muito parecidos em nossas “pequenas e inofensivas crueldades”, ele gostava de ressaltar. Uma vez me disse: “Mas você é mais cruel do que eu”, no que eu retruquei: “Apenas sou mais grosseiro, rude. Você teve uma educação mais refinada... É um filósofo!” Ele já ria, descobrindo em minhas palavras apenas uma gozação à sua condição de filósofo autodidata.

A MULHER NO AQUÁRIO (por AIRTON MONTE)


Sentido horário, sentados: Pedro Salgueiro (só a careca), Nilto Maciel, Jorge Tufic e Soares Feitosa (direto do expediente, ainda com a roupa de advogado); em pé: o jovem Diego e seu pai, o poeta Dimas Macedo; Ary Albuquerque, Edilson Braveza, B. C. Neto, José Maria Barros Pinho e Airton Monte. Fortaleza, jardins da Reitoria da UFC, solenidade de lançamento dos livros do vestibular, autores Pedro Salgueiro, Airton Monte e Virgílio Maia, abril de 2005.
              
É claro que eu a mantinha escondida, debaixo de sete chaves, uma mulher no aquário, de talhe esbelto, espinhaço grego, uma contida fúria nordestina, estanho nos cabelos, busto farto, abdome terso, ventre cavado, coxas longas e firmes e uns olhos de poço artesiano.
         
Traz ela algo de marfim no que se move, nada, fala, dança. Eu a olho, meio espanto e meio susto, e na minha boca vem um gosto de maracujá.
        
A princípio, pensei tratar-se de um presente insólito de minha imaginação, realmente vívida das mulheres que perdi ou me perderam. O que estraga o ser humano é a memória, fonte de todos os remorsos. Sem memória, talvez doesse menos viver.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

UM ABISMO ENTRE VERDADE E AFETAÇÃO ARTÍSTICA (por Chico Lopes)

A atriz Kim Novak, cuja carreira, já nos anos 1960, havia sucumbido à chegada de novas estrelas, mais “naturais” que as dos anos anteriores, não teve grande brilho em sua trajetória no cinema (hoje é uma idosa reclusa, casada com um veterinário, há muito tempo sem filmar). Foi em geral considerada, apesar de bela, uma atriz fraca, muito fria e alheia em seus papéis. Mas conheceu um triunfo (e não é dos pequenos) – foi a mulher dupla, Madeleine Elster/Judy Barton, em “Um corpo que cai”, a obra-prima suprema de Alfred Hitchcock.

O filme agora chegou aonde merecia estar há muito tempo: no topo da lista dos críticos da revista “Sight and Sound”, derrubando “Cidadão Kane” para o segundo lugar, e Kim, a despeito de suas fraquezas, pode se orgulhar de ter alcançado o que poucas atrizes ou estrelas mais talentosas que ela conseguiram.