quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A HORA DO POBRE (Pedro Salgueiro para O POVO)


O Presidente Vargas, o nosso simpático PV, é o estádio de futebol mais querido de estado do Ceará. Simples e aconchegante, possui a característica singular de estar situado em um bairro central, o Benfica, mais precisamente na Gentilândia, capital amorosa do citado bairro. Querido por todos, mas bastante negligenciado pelo poder público e mesmo pelos próprios frequentadores por décadas, vivia rachado em suas estruturas de cimento, feio por fora e por dentro, uma lástima: seus muros e bilheterias serviam de banheiro público para os feirantes da pracinha ao lado.
Invariavelmente todos se sentiam bem, apesar da sujeira e desorganização que reinavam. Era, podia se dizer, um estádio popular. Preços mais baixos, acesso facilitado para carros, bicicletas, e até mesmo a pé, pois facilmente chegavam turmas de torcedores de vários bairros em caminhadas, verdadeiras peregrinações.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

UM CIGARRO DEPOIS (por Ruy Vasconcelos)

 



para chegar à conversa a qualquer hora.

Nada como ter menos de trinta. As possibilidades de conversa imantam alguns botecos a partir do balcão. As conversas é que estão lá, esperando pelos donos. Penando em noites sem dança para os lados do Meireles

o balcão, aliás, é o último recurso antes da meia-idade. O balcão é o desenlace definitivo antes da vida respeitável. Sinopse daquelas grandes mesas, onde todos se reconhecem, já tomaram alguns porres. Ou dormiram juntos. Ou vão tomar. Ou dormir. Ou deram alguns vexames. Ou vão dar


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

BROKEBAACK MOUNTAIN (por Trompson Loiola para a UOL-Cinema)

No conto "Brokeback Mountain", de Annie Proulx, os caubóis são feios e toscos
THOMPSON LOIOLA
Colaboração para o UOL
ANNIE PROULX
 
Heath Ledger e Jake Gyllenhaal em Brokeback Mountain, baseado no conto de Anne Proulx


A escritora Annie Proulx não fala mais sobre "Brokeback Mountain", seu conto publicado pela primeira vez em outubro de 1997 na conceituada revista norte-americana "The New Yorker". Proulx (pronuncia-se "prul"), senhora de 70 anos, vive em uma região rural do Wyoming, estado no centro-noroeste dos Estados Unidos, que faz divisa com Utah e Colorado, ao sul, e Montana, ao norte. Segundo ela, o assédio em torno da história estava comprometendo sua rotina de escritora.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A queda em questão no mais romântico e pessimista dos filmes (por Chico Lopes)


Ela passa. Não é, no entanto, um passar comum. Para que passasse por diante da câmera, para que fosse vista por um certo detetive, foi rigorosamente vestida e preparada por um homem muito esperto e maldoso, que precisava enganar alguém. Ela desliza, se exibe, submete-se ao exame do personagem. E ao nosso. Fisgando o homem para quem desfila, fisgou-nos. Ela é Madeleine, o impostor é Galvin Elster e o detetive, Scott.

Fomos fisgados por Hitchcock, o verdadeiro manipulador, o artífice dessa cena que não se pode esquecer. Que Scott, a seguir, já apareça no encalço dessa mulher pelas ruas de San Francisco, nos parece a coisa mais natural do mundo. Ele tinha conversado com Elster, que expusera o triste caso da esposa e de suas estranhas perambulações pela cidade, ele não quisera aceitar a tarefa de segui-la e descobrir suas intenções. Elster lhe pedira que fosse vê-la no restaurante Ernie´s e, claro – era preciso apenas que a visse para que a amasse. Nada de dizer “aceito a missão”. Para quê? Está tudo na imagem. Hitchcock é o rei das elipses significativas.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O QUINTAL DOS PÁSSAROS (Pedro Salgueiro para O Povo)



Sou apaixonado por pássaros desde a infância.

Como fui criado em quintais enormes, misturado com uma infinidade de irmãos, primos e amigos, livres e inventando todo tipo de brincadeira, caçar passarinho era uma das mais cotadas; certa espécie de ritual de passagem a uma idade menos inocente. Procurávamos forquilhas as mais perfeitas possíveis, botávamos para secar o cabo de marmeleiro que não rachava e era bem lisinho, descascávamos com paciência e depois bastava encontrar pedaços de câmara de ar de bicicleta para compormos nossas baladeiras. Minto, ainda faltava as “fundas”, pequenos pedaços de couro onde se colocavam as pedras, facilmente encontradas na oficina de meu pai sapateiro. Distribuía os pedacinhos de vaqueta entre os amigos, que em troca me davam as tiras de borracha.