Agualusa: ficção deve discutir a realidade 17.07.2013
O escritor acredita que a realidade é mais poderosa que a ficção. Por e-mail, o angolano respondeu às questões
Já se tornou célebre a frase de Cortázar: "O romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute". Observando essa seleção, qual conto foi mais exigente no processo de escrita? Por quê?
Os contos representados nesta antologia são muito diversos entre si. Além disso, foram escritos ao longo de vinte e cinco anos. Como é natural, os contos mais recentes são, provavelmente, os mais apurados e complexos. A Educação Sentimental dos Pássaros, que dá título a um dos livros, e é narrado em parte por Jonas Savimbi, o dirigente guerrilheiro morto em combate contra as forças governamentais angolanas, em 2001, e em parte pelo próprio escritor, deu-me uma certa luta. Esse exercício de me colocar na pele de um sujeito tão complexo quanto Savimbi não foi fácil. Savimbi era um homem brutal, louco, um assassino sem escrúpulos, mas que também podia ser afável, cativante, exuberante, inteligente e extremamente corajoso. Ele começa a contar a história da sua vida no instante em que uma bala o atinge.
Os contos representados nesta antologia são muito diversos entre si. Além disso, foram escritos ao longo de vinte e cinco anos. Como é natural, os contos mais recentes são, provavelmente, os mais apurados e complexos. A Educação Sentimental dos Pássaros, que dá título a um dos livros, e é narrado em parte por Jonas Savimbi, o dirigente guerrilheiro morto em combate contra as forças governamentais angolanas, em 2001, e em parte pelo próprio escritor, deu-me uma certa luta. Esse exercício de me colocar na pele de um sujeito tão complexo quanto Savimbi não foi fácil. Savimbi era um homem brutal, louco, um assassino sem escrúpulos, mas que também podia ser afável, cativante, exuberante, inteligente e extremamente corajoso. Ele começa a contar a história da sua vida no instante em que uma bala o atinge.
Para o escritor angolano José Eduardo Agualusa, "a condição minoritária leva a pessoa a se questionar, a pensar, a se afirmar, e isso pode ser bom para a literatura e as restantes expressões artísticas"
Ordenados em ordem cronológica de publicação em livro, os contos parecem que vão ficando, com o passar do tempo, mais enxutos e, portanto, mais afiados. Concorda com essa afirmação? Qual análise você faria dessa evolução na sua escrita?
Nunca tinha pensado nisso, mas parece-me natural. Uma boa parte do meu esforço, enquanto escritor, é o despojamento. Gonçalo M. Tavares, um escritor que eu admiro muito, diz que escreve de rajada, sem parar, numa espécie de transe, atropelando a gramática, e que só depois corrige. Eu vou corrigindo cada frase, até lhe tirar a gordura toda. Quando termino um conto, ou o capítulo de um romance, já não há muito a tirar. Creio que com o tempo vamos ganhando voz e, claro, aperfeiçoando estratégias. O desafio é apurar a técnica, mantendo a emoção, o que só se consegue se continuarmos apaixonados e deslumbrados pela escrita.
Nunca tinha pensado nisso, mas parece-me natural. Uma boa parte do meu esforço, enquanto escritor, é o despojamento. Gonçalo M. Tavares, um escritor que eu admiro muito, diz que escreve de rajada, sem parar, numa espécie de transe, atropelando a gramática, e que só depois corrige. Eu vou corrigindo cada frase, até lhe tirar a gordura toda. Quando termino um conto, ou o capítulo de um romance, já não há muito a tirar. Creio que com o tempo vamos ganhando voz e, claro, aperfeiçoando estratégias. O desafio é apurar a técnica, mantendo a emoção, o que só se consegue se continuarmos apaixonados e deslumbrados pela escrita.
