quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Eu também vou reclamar!*

Virou moda no Brasil protestar: se reclama contra tudo, contra todos – o dedo do povo está apontado pra frente, pro outro! O erro está no lado de lá da cerca, nos alheios comportamentos, nunca neles (em nós, pois), os protestantes... O povo que tudo pode e/ou tudo acha que sabe, vai às ruas exigir... Ninguém protesta consigo mesmo pelo que fez ou deixou de fazer pelo País, pelo próximo. Todos tiram o “seu” da reta na hora de reclamar... Eles votaram certos, foram honestos, trabalhadores e, principalmente, competentes.

Dia desses vai aparecer, esperem, um protesto contra tanto protesto, pois até nós, professores – historicamente tão submissos – não vamos querer mais dar aulas (a lição agora é de democracia, de história, nas ruas!); os alunos, então, não vão mais aceitar essa coisa “fora-de-moda” chamada educação formal. Os nossos políticos de “esquerdas” (ou canhotos) já anteviram tais “atrasos” com algumas décadas de antecedência, porque quase nunca foram de frequentar muito as “antiquadas” salas de aulas, terminavam suas faculdades nos protestos, nos piquetes, nas reuniões: exercer profissões junto ao povo (isso é coisa para médico cubano), nem pensar: candidatavam-se logo aos cargos dos CAs, DCEs, vereadores, deputados, senadores da vida... Tomaram “gosto” pela política e nunca mais largaram o osso: apareciam em sala de aula somente para dar avisos e fazer convocações.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Entrevista com o escritor José Eduardo Agualusa (por Ubiratan Brasil)

Agualusa: ficção deve discutir a realidade 17.07.2013


O escritor acredita que a realidade é mais poderosa que a ficção. Por e-mail, o angolano respondeu às questões

Já se tornou célebre a frase de Cortázar: "O romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute". Observando essa seleção, qual conto foi mais exigente no processo de escrita? Por quê?

Os contos representados nesta antologia são muito diversos entre si. Além disso, foram escritos ao longo de vinte e cinco anos. Como é natural, os contos mais recentes são, provavelmente, os mais apurados e complexos. A Educação Sentimental dos Pássaros, que dá título a um dos livros, e é narrado em parte por Jonas Savimbi, o dirigente guerrilheiro morto em combate contra as forças governamentais angolanas, em 2001, e em parte pelo próprio escritor, deu-me uma certa luta. Esse exercício de me colocar na pele de um sujeito tão complexo quanto Savimbi não foi fácil. Savimbi era um homem brutal, louco, um assassino sem escrúpulos, mas que também podia ser afável, cativante, exuberante, inteligente e extremamente corajoso. Ele começa a contar a história da sua vida no instante em que uma bala o atinge.

Para o escritor angolano José Eduardo Agualusa, "a condição minoritária leva a pessoa a se questionar, a pensar, a se afirmar, e isso pode ser bom para a literatura e as restantes expressões artísticas"


Ordenados em ordem cronológica de publicação em livro, os contos parecem que vão ficando, com o passar do tempo, mais enxutos e, portanto, mais afiados. Concorda com essa afirmação? Qual análise você faria dessa evolução na sua escrita?

Nunca tinha pensado nisso, mas parece-me natural. Uma boa parte do meu esforço, enquanto escritor, é o despojamento. Gonçalo M. Tavares, um escritor que eu admiro muito, diz que escreve de rajada, sem parar, numa espécie de transe, atropelando a gramática, e que só depois corrige. Eu vou corrigindo cada frase, até lhe tirar a gordura toda. Quando termino um conto, ou o capítulo de um romance, já não há muito a tirar. Creio que com o tempo vamos ganhando voz e, claro, aperfeiçoando estratégias. O desafio é apurar a técnica, mantendo a emoção, o que só se consegue se continuarmos apaixonados e deslumbrados pela escrita.

LIVRO PÓSTUMO DE BOLANÕ NO BRASIL (por Alfredo Monte)

Dez anos sem Bolaño e as agruras do seu leitor

 
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“Sobre a velhice, Amalfitano mal pensava.  Às vezes  se via com uma bengala, percorrendo uma alameda luminosa e gargalhando entre dentes. Outras vezes se via encurralado, sem Rosa, as janelas com as cortinas fechadas e a porta trancada com duas cadeiras. Nós chilenos, pensava, não sabemos envelhecer e em geral caímos no ridículo mais espantoso; não obstante, ridículos e tudo, em nossa velhice há algo de valentia, como se ao nos enrugar  e adoecer  recuperássemos a coragem da nossa infância temperada no país dos terremotos e maremotos. (Quanto ao mais, o que Amalfitano sabia dos chilenos eram  apenas suposições, fazia tempo que não os via.)”
(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de julho de 2013)

Em 15 de julho de 2003 morria Roberto Bolaño, aos 50 anos, aguardando o transplante de fígado que poderia salvá-lo da insuficiência hepática. Passada uma década, tornou-se figura mítica (uma espécie de reatualização da figura do “escritor maldito”) e referência da cultura contemporânea, um de seus pontos de fuga obrigatórios. Os detetives selvagens (1998) e 2666 (lançado postumamente, em 2004) já gozam do status de obras fundamentais—merecido, a meu ver. Atualmente, o chileno que viveu boa parte da sua curta vida no México e na Espanha exerce fascínio similar ao de Borges ou Garcia Márquez na época do boom hispano-americano.

BANVILLE no BRASIL (por Sérgio Rodrigues)

Banville e a máquina de produzir epifanias



Reconheço que o alerta pode afugentar leitores deste texto que mal começa, mas paciência: muitas vezes, ler demais sobre um escritor atrapalha a leitura do próprio escritor. Veja-se o caso do irlandês John Banville, que acaba de vir à Flip a bordo de seu último romance, “Luz antiga” (Biblioteca Azul, tradução de Sergio Flaksman, 336 páginas, R$ 39,90).

Quando se sabe que o próprio Banville se considera um raro – talvez até único, embora isso não fique claro – artista verdadeiro das letras num cenário internacional povoado de artesãos no máximo competentes e outros fornecedores de conteúdo para o mercado editorial, um representante implacável da literatura highbrow num mundo definitivamente middlebrow, é tentador transformar a leitura num teste e adotar, após meia dúzia de páginas, uma de duas posturas: ficar a favor de tal juízo presunçoso, encontrando a cada linha a confirmação de seu acerto, ou ficar contra o mesmo juízo e descobrir em cada linha seu desmentido categórico. Em outras palavras: ou Banville é um gênio ou é uma besta.

terça-feira, 18 de junho de 2013

OS MORTOS, de James Joyce (por Alfredo Monte)

OS MORTOS (The Dead), um texto-chave na obra de James Joyce

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Fico sempre assombrado com a idade em que certos textos foram escritos. É o caso de Os mortos (The dead), o último e mais famoso conto de Dublinenses. James Joyce tinha  25 ou 26 anos ao escrevê-lo, naquela primeira década do século XX (nascera em 1882) em que se dedicava à criação da versão inicial do seu romance de formação, que só seria publicado, depuradíssimo em 1916, como Um retrato do artista quando jovem (dois anos antes, ele conseguira publicar, tardiamente, os quinze contos de Dublinenses, entre eles Os mortos, que fecha a coletânea).

Se Stephen Herói resultava informe, desagregado, frouxo enquanto narrativa, os contos daquela época mostram que Joyce poderia ficar na história como um dos grandes do gênero, independentemente da sua reputação futura, mais calcada na ruptura e na ousadia formal. São textos praticamente perfeitos, com um sopro do teatro de Ibsen neles[1], mas perfeitamente alinhados a grandes mestres “atmosféricos” (Maupassant, Turguêniev, Tchekhov) do gênero.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A TURMA DA LITERATURA (Pedro Salgueiro para O Povo)



— O SILÊNCIO DAS LETRAS

O escritor é serzinho esquisito, casmurro, cismado.

Diferentemente da “galera” da Música, do Teatro, das Artes Plásticas e de outras artes mais performáticas, a turma da Literatura é mais calma, comedida, quase invisível, eu diria. Claro que tem suas exceções, os “pindaibeiros” (capitaneados por André Dias e Manoel Carlos da Fonseca, dentre outros) aqui do Benfica adoram misturar suas letras pouco comportadas com o zunido do rock e outras nóias ma(i)s em movimentados lançamentos. As antigas Rodas de Poesias do Centro Dragão do Mar eram recitadas ao som de tambores e guturais gemidos. Outras experiências pouco convencionais pululam aqui e ali em nossa espevitada lourinha destrambelhada pelo sol.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

JOÂO UBALDO RIBEIRO (Entrevista ao jornal O Povo)

Operário de Itaparica



Todo ano, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro se faz uma promessa que não consegue cumprir. Tem tentado se desvencilhar nos últimos tempos dos chamados para eventos literários que chegam a sua caixa de e-mails rigorosamente todos os dias. “Ou eu sou duro (...) ou esqueça: minha obra futura vai ser só de e-mail”, explica, com a certeza de que, dessa vez, está firme para recusar o que vier. Já abortou vários inícios de romances por conta desses compromissos.

Quer viajar menos, se dedicar mais à Academia Brasileira de Letras, da qual faz parte, na cadeira 34, desde 1993, e principalmente se debruçar mais sobre novos projetos; o último foi o romance O Albatroz Azul, de 2009. A única viagem que se permite fazer sem restrições é à Ilha de Itaparica, onde revê os amigos e se inteira das fofocas e novidades do lugar. É lá onde se sente bem, com o povo do mercado de Santa Luzia.

MEU AMIGO SÂNZIO DE AZEVEDO (por Pedro Salgueiro)


Conheci Sânzio de Azevedo através de seu livro Literatura Cearense, bem antes de começar a escrever qualquer coisa, ainda na fase de primeiras leituras de reconhecimento de nossas letras alencarinas. Adorava o livrão porque, além de uma breve biografia, trazia um texto de cada autor, e mesmo de escritores mais jovens havia alguma referência; depois li alguns artigos esparsos em outros volumes seus, em meados da década de 1980. Só muito depois fui saber que escrevia poemas e rabiscava contos realistas (sempre baseados em fatos de suas lembranças).

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O visível e o invisível no novo livro de Linhares Filho (por Vicente Jr.)




 
         O poeta José LINHARES FILHO é dessas pessoas “necessárias” com as quais todo ser humano, todo artista merece conviver. A retidão de seu caráter e o estro seguro de sua poesia tornaram-se lugar comum na cena literária brasileira, especificamente, na literatura do Ceará. Desde o livro “Sumos do tempo”(1968), como voz emblemática do Grupo SIN, ao livro “Notícias de bordo” (2006), indicando que há um porto onde é preciso chegar, e agora, no volume de que falamos, o que temos é um poeta cada vez mais seguro do seu oficio, um “lavrador da linguagem”, no dizer do ensaísta Carlos Augusto Viana, e um fiel avalista das múltiplas possibilidades do gênero lírico. Tem sido um imenso prazer acompanhar, com o olhar mesmo de discípulo, a trajetória iridescente desse vate da poesia cearense.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

INFERNO ASTRAL (Pedro Salgueiro para o jornal O Povo)


 Não sei se o leitor concorda, ou se já passou também por isso, e – caso tenha passado – se chegou a ter consciência do fato: tem dias, semanas, meses, às vezes mais, que tudo dá errado com a gente: são doenças inesperadas, confusões no trabalho, simples topada ou escorregão; quaisquer que sejam, pequenas ou grandes, as “encrencas” que nos aconteçam. O certo é que nunca vêm sozinhas, desencadeiam uma sequência de ações desastrosas.

Percebi este fato bem cedo, criança ainda; e quando começavam as coisas a darem erradas, bastava umazinha depois da outra, e eu já prontamente tratava de me defender: saia pouco de casa, não falava com ninguém, fazia quase nada, rezava apenas...

quarta-feira, 15 de maio de 2013

J. M. COETZEE (por Sérgio Rodrigues)

‘A infância de Jesus’: o gesto primordial da literatura



Em seu novo romance, “A infância de Jesus” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 304 páginas, R$ 44,00), J.M. Coetzee leva a investigação ética que sempre foi o principal motor de sua literatura a um plano de inédita rarefação. Descarnada e assumidamente alegórica desde o título, a narrativa desenha uma série de parábolas provisórias e inacabadas que se corrigem e se negam o tempo todo, recusando ao leitor o prazer de fechar um sentido e dizer: “Ah, então é isso!” – prazer que se pode chamar de fácil, mas do qual é dificílimo abdicar por completo, sob risco de inviabilização não apenas da literatura mas da própria linguagem. O que confirma o sul-africano, no mínimo, como o mais corajoso dos grandes escritores vivos.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Revista DIVERSOS AFINS

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Amigos, vejam a nova edição do ótima revista "Diversos Afins".

Entre os destaques:

- uma exposição fotográfica com os trabalhos de Rosa De Luca;

- os percursos poéticos de Rita Santana, Tristan A. Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá;

- a entrevista com o escritor Sérgio Tavares, vencedor de uma das edições do Prêmio SESC Nacional de Literatura;

- Clarissa Macedo rememora o poeta Francisco Carvalho;

- todo o vigor dos contos de Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Saad Rossi;

- o filme francês “Dentro da Casa” pelos olhos de Larissa Mendes.



E sempre mais em:




 Os editores são: 
 Fabrício Brandão & Leila Andrade.

CARLOS TRIGUEIRO: UM CEARENSE DE CORAÇÃO (por Pedro Salgueiro)


                                                                              
  “Dos rincões que pisei fora do Amazonas, nenhum deixou sulcos mais profundos na minha alma que o Ceará.”
(Carlos Trigueiro – Memórias de Liberdade)
O povo alencarino se tornou conhecido por sair mundo afora, buscando sustento físico e espiritual. Todo cantinho do mundo que se preze tem um cearense como habitante, seja ele porteiro ou cientista, padeiro ou escritor. Dizem que quando Neil Armstrong chegou à lua por lá encontrou uma rapadura e um restinho de farinha, esquecidos por algum cabeça-chata. Certa vez perguntaram ao nosso cronista maior Rubem Braga se ele realmente tinha sido o primeiro repórter brasileiro a cobrir uma grande guerra. Ele pensou um pouco, deu um raro sorriso e sapecou: “– Rapaz, não sei. Pode ser que algum cearense tenha se antecipado”. Ele mesmo andou por aqui, conheceu sertões e tirou fotos em jangadas.

terça-feira, 30 de abril de 2013

DIEGO MORAES (por Alfredo Monte)

A SOLIDÃO É UM DEUS BÊBADO DANDO RÉ NUM TRATOR, de Diego Moraes

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“Manaus é tão triste que às vezes tenho a sensação de estar morto há muito tempo. Quando caminho pelo Porto e vejo barcos ancorados, recordo-me de pessoas que escrevem mal.”  ( Diego Moraes, trecho de Cansaço, em A fotografia do meu antigo amor dançando tango)
“Era tão drogado que escrevia como trem descarrilando e num estilo de matar personagens num jeito só dele.”  (Diego Moraes, trecho de Travadão, em A fotografia do meu antigo amor dançando tango)
“Meu amor é guiar este trator na escuridão.”
“As definições de mágoas foram atualizadas.”  (Diego Moraes, A solidão é um deus bêbado dando ré num trator)
(a resenha abaixo, sem notas de rodapé ou anexo, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de abril de 2013)

O MUNDO INTEIRO É UM PALCO (por Theófilo Silva)


Shakespeare disse pela boca de Jacques em sua peça Como Gostais que “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”. Essa sentença é bem mais longa e encerra uma série de discussões. Quero me deter apenas em um aspecto dela, que é o de apontar um caráter teatral que alguns indivíduos carregam e demonstram mais que outros, mesmo sem nunca terem atuado, ou sequer terem pensado em atuar. São aspectos que fogem ao seu próprio controle e o tornam “uma figura” interessante, até mesmo sem que eles saibam, muito embora algum se achem  uma pessoa “diferente”, “engraçada”,  “louca”.  Gosto muito de chamar alguns amigos de loucos.

Há coisas que só um bom observador é capaz de enxergar.  O ser humano é como um iceberg – Ernest Hemingway pensava assim – em que, uns três quintos dele permanecem submersos, e o que vemos é insuficiente para mostrar seu formato real. Como ele é realmente. Somente o observador sagaz, e aí entra a capacidade do escritor, é capaz de apontar, desvendar, ou mesmo adivinhar uma pequena parte do que está escondido.

KAYA (a nova revista eletrônica do Ceará)

Kaya [revista de atitudes literárias]




Projeto de Dércio Braúna, Kelson Oliveira e Webston Moura, Kaya [revista de atitudes literárias] é um blog muito bonito. Em sua primeira edição, a revista traz, além dos escritos de seus editores, a participação de Clauder Arcanjo, David de Medeiros Leite, Nilto Maciel, Paulo de Tarso Correia de Melo, Pedro Du Bois e Pedro Salgueiro. Em especial, uma página [Iluminuras] para as artes do olhar. Visite Kaya: http://kayarevistaliteraria.blogspot.com.br/.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

LIVROS (Pedro Salgueiro para O Povo)

  
Conheci o Centro da cidade com diversas livrarias. Hoje fico assustado por também não encontrar mais nenhum cinema (com exceção dos vários mini-cines pornôs que resistem às facilidades da internet) e, pasmem, nenhuma livraria: apenas três sebos verdadeiramente na ativa (um deles quase fechando as portas, segredou-me recentemente o desiludido proprietário); lembremos: nenhuma grande livraria existe mais no Centro; nenhum cinema também. Restam três grandes livrarias de shoppings (idem para os cinemas) nos bairros ricos; duas nas proximidades da UFC, uma das quais há tempos anda mal das pernas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

'Deserto' de J.M.G. Le Clézio (trad. Ray Vasconcelos)

Sobre eles, dentre eles, como se não houvesse ninguém

[s/i/c]


'Eles surgiram como se de um sonho'
-extrato do romance Désert [Deserto], de J.M.G. Le Clézio


Saguiet el Hamra, hiver 1909 – 1910

Ils sont apparus, comme dans un rêve, au sommet de la dune, à demi cachés par la brume de sable que leurs pieds soulevaient. Lentement ils sont descendus dans la vallée, en suivant la piste presque invisible. En tête de la caravane, il y avait les hommes, enveloppés dans leurs manteaux de laine, leurs visages masqués par le voile bleu. Avec eux marchaient deux ou trois dromadaires, puis les chèvres et les moutons harcelés par les jeunes garçons. Les femmes fermaient la marche. C’étaient des silhouettes alourdies, encombrées par les lourds manteaux, et la peau de leurs bras et de leurs fronts semblait encore plus sombre dans les voiles d’indigo.
 

Lygia 90 anos (por Alfredo Monte)

Uma prosa toda feita de delicadezas perigosas: Lygia Fagundes Telles

LYGIA
   
antes do baile verde
VER TAMBÉM NO BLOG: http://armonte.wordpress.com// sobre Lygia F. Telles:
http://armonte.wordpress.com/2012/08/06/a-tapecaria-e-suas-dimensoes/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/a-poetica-do-sorrateiro-as-meninas-de-lygia-fagundes-telles/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/o-teatro-da-inocencia/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/ines-nao-e-morta-muito-pelo-contrario/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/um-classico-do-romance-brasileiro-ciranda-de-pedra/
(as anotações abaixo foram escritas em maio de 2009)

A POÉTICA DO SORRATEIRO
“Assim que comecei a usar a lupa… levei um susto, então era a cara de um inseto debaixo da lente? Fiquei apavorada, aumentados eles eram horríveis! Fui me acostumando quando fui achando que todos esses insetos eram parecidos com a gente nas suas festas. Nas suas brigas. Trabalhavam sem parar e também vadiavam como naqueles ajuntamentos de domingo no largo do Jardim, gostavam de se divertir. E gostavam de brigar e algumas brigas ficavam tão feias que eu fugia com vontade de vomitar. Debaixo da lente era medonho demais”.
(trecho de “A rosa verde”, de A noite escura e mais eu)

Lygia Fagundes Telles está em nova casa editorial. Após a José Olympio, a Nova Fronteira e a Rocco, migrações que fui acompanhando desde os meus 16 ou 17 anos, agora ela está no rol da Companhia das Letras. De saída, foram lançados três dos seus melhores livros,: Antes do baile verde, seleção de contos (1970);, eque será o assunto desta seção, As meninas, seu romance mais prestigiado (1973).. e Invenção e Memória, seu melhor livro recente.

Por uma questão cronológic, e , começo com Antes do baile verde.  Lygia nunca foi uma escritora prolífica em obra, sempre o foi mais em títulos. Excelente estrategista, foi sempre uma antologista de si mesma, recambiando contos daqui e dali e reconfigurando sua carreira. Que fique claro, isso não é uma crítica.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

VERGONHA (por Pedro Salgueiro)

(Chácara Flora, no Benfica)

 
(Dedicada à triste memória do Bangalô Azul e da Chácara Flora,
vítimas da burrice em conluio com a ganância e a incompetência)

Algumas cidades conseguem preservar seu passado, criam leis, instituem penas, fiscalizam construções. A nossa burrinha loura desmiolada pelo sol, não – sente vergonha da sua história. Não há um prédio mais antigo, uma fachada original que cedo ou tarde não seja derrubada, para em seu lugar – altivo e impotente – surgir um daqueles quadrados blocos de concreto que a nossa “genial” e criativa arquitetura moderna andou engendrando durante o século passado inteiro. Tudo bem que nossa acadêmica elite queira construir seus monumentos ao mau gosto, todas as épocas tiveram direito de fazê-lo; porém, contudo, no entanto e entretanto (além do vulgar mas útil “mas”), não precisaria destruir o antigo. Por que não fazê-lo ao lado? – até para que futuras gerações possam comparar e, quem sabe, chegar a uma síntese.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

RENATO RUSSO: ENTRE O APÓSTOLO PAULO E CAMÕES



Monte Castelo

Legião Urbana
Composição: Renato Russo (recortes do Apóstolo Paulo e de Camões).


Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece.

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

É um não-querer mais que bem-querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade
É servir quem vence o vencedor;
É um ter com quem nos mata lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem,
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

* A letra de Renato Russo é uma adaptação do Soneto de Camões e da I Carta de São Paulo aos Coríntios.

quinta-feira, 14 de março de 2013

SONETO PARA O POETA FRANCISCO CARVALHO (por Sânzio de Azevedo)

(Francisco Carvalho)
(Sânzio de Azevedo)


Dos tempos de menino te ficaram
as tardes de sol quente onde os lamentos
dos velhos bois que a morte ruminavam
se esvaíam nas túnicas dos ventos.

Na gleba de teu pai ainda há frutos
das árvores regadas pelos sonhos;
os alpendres, porém, e os altos muros
não deixaram vestígios nem escombros.

Mas tens o verso, com que todo dia
fazes viver um mundo de utopias
com a antiga crença de um profeta hebreu.

E vês que a hora do poema é a hora da lavra
em que ficas à espreita da palavra
que há de queimar como o êxtase de Deus

                                                    

* Soneto copiado das páginas 66-7 do livro, de Sânzio de Azevedo, Cantos da Antevéspera. Fortaleza: UFC - Casa de José de Alencar, 1999.

                                                                          

quarta-feira, 13 de março de 2013

O AMOR ENCONTRADO (por Luiz Ruffato)



(Ilustração: Rafa Camargo)


Quarto poema

No último dia do último ano da falseada infância,
vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,
não imaginava que, mil e quatrocentos quilômetros além,
tu já existias, forma entre formas, magros dedos
desenhavam efêmeros rabiscos na suada vidraça
de um inverno engastalhado na memória,
cicatrizes maculavam teu corpo inúbil,
pernas ocultavam silêncios entre os móveis,
noites aqueciam mágoas
aqueciam nódoas.

No último dia do último ano da falseada infância,
vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,
só eu não existia ainda. Tu me inventaste.



* Poema do mineiro radicado em São Paulo, Luiz Ruffato, publicado no jornal Rascunho, de Curitiba/PR: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-amor-encontrado/ .

ANTENADO (Pedro Salgueiro para O Povo)


Mesmo me considerando um sujeito medianamente “antenado”, de quando em vez me deparo com alguma informação que me deixa de “cabelo-em-pé” (não riam, é apenas uma expressão, como os hífens denunciam), tal o ineditismo da referida palavra ou frase em meus já peludos ouvidos (também o mesmo estranhamento se dá quando escuto alguém se referir a determinados cantores, artistas em geral, e até mesmo aos famosos por quinze minutos que um dia Andy Warhol nos preveniu).
Quando aqui cheguei do interior, inocente puro e besta (como bem cantou Raulzito), uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o uso de expressões, digamos, “moderninhas”; os garotos de minha idade eram “descolados” pra chuchu. E mal entrei em sala de aula, um de meus primeiros colegas me sapecou logo um “Fala aí, Barão!”. Quase saí correndo: eu que era no máximo versado em “Diz aí, bicho!”.

terça-feira, 12 de março de 2013

INFINITAS PRAIAS (por Nathan Matos)

A outra praia
Gustavo Nielsen
Editora Dublinense

Quando nos deparamos com algo que possui uma metamorfose declarada, como a do camaleão ou a da lagarta, ficamos a esperar o vislumbre que vem com aquele ato. Ao iniciar uma leitura sempre pensamos que algo tão revelador irá acontecer. Foi assim que me senti enquanto lia A outra praia, do escritor argentino Gustavo Nielsen.

 Os diálogos iniciais que não são, digamos, esclarecedores, fazem com que nos portemos de maneira diferente na poltrona. Gustavo Nielsen ilude-nos com sua narrativa muito bem arquitetada. É um escritor que se utiliza de flashbacks como poucos. Tal método pode ser tido como algo recorrente em romances de suspense, mas nem todos têm a capacidade de nos fazer exclamar ‘Eu não acredito!’.

DEU NA GAZETA (por Karla Gomes)




Da rua, ele assistia aos vizinhos tentando apagar as chamas que rapidamente consumiam a casa...

Mesmo antes dela, ele soubera que havia algo diferente. O corpo, o cheiro, o gosto, tudo nela estava diferente. A textura da pele, do cabelo eram outras. 

Aquela não era a mulher de sempre. Alterara-se.

Aos poucos, fora impondo-lhe limites, oferecendo-lhe outros mimos.

Ele, por sua vez, resignara-se, até sua paciência sucumbir ao estridente choro de bebê.

Não aceitou a divisão.

O resto foi notícia de jornal.



* A autora é cearense de Crateús - copiado dos blogs:
SABi - sabicrateus.blogspot.com
ALC - academiadeletrasdecrateus.blogspot.com

 

SANTA IGNORÂNCIA (por Theófilo Silva)



As especulações da imprensa acerca da renúncia do papa Bento XVI, bem como do conclave e do cardeal que poderá sucedê-lo, demonstram uma gigantesca ignorância de como funciona a igreja. O cerne das notícias é de que o novo papa deve ser brasileiro, africano, novato, ou de um país com maioria católica. Para eles, a lógica tem que ser a mesma que rege a política, tudo tem que ser feito de forma “democrática”. Santa ignorância!

A Igreja católica representa o status quo, uma instituição de quase dois mil anos de existência que foi se fragmentando ao longo do tempo, sendo dividida em várias outras seitas e religiões cristãs. Mas que, ainda assim, detém um número de fiéis que chega perto de 20% da população mundial. Se contarmos apenas com o ocidente, esse percentual pode chegar a 40%.


sexta-feira, 8 de março de 2013

EUGÊNIO LEANDRO (por Danilo Castro - Jornal O Povo)

Gênios da raça 08/03/2013 (Jornal O Povo) 

Mansidão da terra

Da seca de 1958 em Limoeiro do Norte à militância na Fortaleza dos anos 1980, o músico e escritor Eugênio Leandro rememora os caminhos que escolheu trilhar
    EDIMAR SOARES
    Eugênio Leandro: "Minhas conquistas foram por causa dos amigos"
    Numa manhã quente, encandeada pela luz refletida do mar, aconteceu o encontro. Olhando para o Estoril fechado, o músico e escritor Eugênio Leandro se desmancha em saudosismo. “Foi aqui que tudo começou. Aqui lancei todos os meus discos”. A Praia de Iracema é um dos recantos mais amados do telúrico irremediável. Lugar de plena efervescência artística durante a década de 1980. A caminhada pela rua dos Tabajaras foi marcada de boas lembranças.

    

    Fugindo da seca de Limoeiro do Norte, o pai e a mãe de Eugênio o fizeram nascer em Fortaleza, mas, antes mesmo de completar um ano, o menino retornou ao berço interiorano devido a uma proposta de emprego que o pai recebeu. “Eu era o ‘menino de Fortaleza’, as pessoas achavam isso importante, mas eu não sabia o que era aquilo, ficava incomodado”. Somente seis anos depois, ele visitou a Capital pela primeira vez. “Papai me levou pra ver o mar do Passeio Público. Foi um encantamento tão grande”, lembra, como se a maré verde brotasse dos próprios olhos.


    quinta-feira, 7 de março de 2013

    RECORDANDO FRANCISCO CARVALHO EM SEUS 72 ANOS (por Mailma de Sousa)

     
     


     

      Fortaleza, Ceará - Quinta-feira 17 de junho de 1999


    Ao pastor dos dias maduros
    Uma homenagem aos 72 anos do poeta Fancisco Carvalho


         Agora, quando, além de já ter lido toda a sua obra poética mais seus dois livros de exercícios literários, Francisco Carvalho, escrevi demoradamente, por não saber fazê-lo de modo sintético, como exigem os tempos... escrevi demoradamente minha análise literária, pronta sobre sua vasta poesia, compreendido o ensaio nas três partes com as quais desejei mesmo concebê-lo, longo percurso que às vezes se tornou difícil realizar, em função de algumas adversidades, porém aprontou. Afinal, posso lhe dizer que aprontou. E, aos seus 72 anos (11 de junho de 1999), tenho meu coração mais acelerado pela emoção de relembrar que num domingo, 19 de maio de 1996, afligi-me muito pelo fato de, tendo lido, naquele dia, seu primeiro livro que me deram a conhecer, “Rosa dos Minutos” (1996), adiamento atribuído não sei a que, pois lhe digo, poeta, que me inquietei demais naquela data, que já completou três anos, porque não alcancei o que li, tendo assim, confesso, guardado imediatamente este e mais os seus “As Visões do Corpo (1984), “Barca dos Sentidos” (1989), “Exercícios de Literatura (1990), “Crônicas das Raízes” (1992), “O Tecedor e Sua Trama” (1992), “Sonata dos Punhais (1994), “Galope de Pégaso (1994), “Textos & Contextos (1995) e mais uma fotocópia de “O Tempo e os Amantes” (1966), todos um presente valioso que tive o privilégio único de receber. Todos guardados ainda por mais de seis meses após aquele maio, livros indistintos entre outros. E como eu não identificava Francisco Carvalho entre Camões, Pessoa, Drummond, Bandeira, João Cabral, Mário Quintana, Vinícius e mais tantos poetas do Ser, dispostos na estante? Pois lá estavam todos e você ainda indiferenciado, meu poeta! Hoje penso que parece que somente para mim.

    quarta-feira, 6 de março de 2013

    EM TOM MENOR (Pedro Salgueiro para O Povo)

     

    FRANCISCO CARVALHO

    Morreu Francisco Carvalho, um dos maiores poetas não apenas do Ceará, mas do Brasil. Morreu de maneira discreta, sem alardes e gritantes sofrimentos, assim como sempre viveu, em seu canto, quieto...
    Conheci o poeta, que nasceu em Russas e veio jovem estudar e trabalhar no comércio de Fortaleza, quando ele ainda dava expedientes na Reitoria da UFC, levado pelo amigo comum Sânzio de Azevedo; lá voltei diversas vezes, sozinho mas principalmente acompanhado de alguns escritores também conhecidos dele ou que o queriam conhecer. O ritual era quase sempre o mesmo, levantava-se para apertar mãos, sentava-se tímido, comentava (quase sempre elogiando os interlocutores; fazia questão de recordar características do autor presente, mesmo quando apenas um jovem iniciante, de quem havia lidos às vezes poucos poemas) sobre literatura e descambava invariavelmente para a situação política do país, destilando alguns comentários ácidos e desesperançados sobre o Brasil e seus políticos.

    terça-feira, 5 de março de 2013

    VARIAÇÕES SOBRE A MORTE (Francisco Carvalho)


    


    Quando o homem perde
    o primeiro fio de cabelo 
    começa a dialogar com a morte.

    A morte, ausência 
    de todas as sensações,
    é a mais ostensiva das presenças.

    Ninguém consegue fugir da morte
    pela simples razão de que 
    somos hospedeiros dela.

    A morte chega, apaga
    a luz dos teus olhos e acende
    os seus negros castiçais.

    Algum dia te visitará
    uma sombra de olhos de areia
    e bruscamente cerrará tuas pálpebras.

    Morte, ó ceifeira veloz.
    Quantas são as espigas 
    que abastecem o teu celeiro? 

    sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

    João Guimarães Rosa - Entrevistado por Günter Lorenz "Diálogo com Guimarães Rosa"



    Diálogo com Guimarães Rosa
    Gênova, janeiro de 1965.

    LORENZ: Ontem, quando escritores participantes deste Congres­so[1] debatiam sobre a política em geral e o compromisso político do escritor, você, João Guimarães Rosa, político, diplomata e escritor brasileiro, abandonou a sala. Embora sua saída não tenha sido de­monstrativa, pela expressão de seu rosto e pelas observações que fez, podia-se deduzir que o tema em questão não era de seu agrado.

    GUIMARÃES ROSA: É verdade; agi daquela forma, porque o tema não me agradava. E para que nos entendamos bem, digo-lhes que não abandonei a sala em sinal de protesto contra o fato de esta­rem discutindo política. Não foi absolutamente um ato de protesto. Saí simplesmente, porque achei monótono. Se alguém interpreta isto como um protesto, nada posso fazer. Embora eu veja o escritor como um homem que assume uma grande responsabilidade, creio en­tretanto, que não deveria se ocupar de política; não desta forma de política. Sua missão é muito mais importante: é o próprio ho­mem. Por isso a política nos toma um tempo valioso. Quando os escritores levam a sério o seu compromisso, a política se torna su­pérflua. Além disso, eu sou escritor, e se você quiser, também di­plomata; político nunca fui.

    LORENZ: É uma bela opinião sobre a importância do papel do escritor: mas não será demasiado idealista? Foram discutidos mui­tos aspectos do cotidiano político; e, além disso, acho que um escritor não teria muitas probabilidades de êxito se, como você quer, tra­tasse apenas do homem em geral, deixando de lado a vida diária desse mesmo homem.

    GUIMARÃES ROSA: Posso compreender isso e também sei que aqui provavelmente todos pensam de modo diferente do meu. En­tretanto, me propus a dizê-lo claramente: tenho a impressão de que todos eles discutem demasiado, e por isso não conseguirão realizar tudo o que desejam. Perdem muito tempo, que empregariam me­lhor escrevendo. Mesmo supondo-se que tudo aquilo que dizem es­tivesse certo, então seria ainda mais acertado que cada um escrevesse sua opinião, em vez de expressá-la perante um auditório tão limitado. A palavra impressa tem a maior eficácia e além disso estas discussões secas me entediam, pois são muito aborrecidas. Descon­fio que só são feitas para alguns deles poderem se confirmar a si ; próprios sua importância e poderem assim se desligar de sua res­ponsabilidade sem peso de consciência. Naturalmente isto não vale para todos, pois quando homens como Asturias falam pró domo, terão também suas razões. Mas você já observou que os que mais falam de política são sempre aqueles que têm menos livros publi­cados? Quando os têm, não são livros onde expressem idéias semelhantes às expostas aqui. Noto a falta de coerência entre suas obras e suas opiniões.

    RAPIDINHAS (Curtas e Grossas) - Pedro Salgueiro para O Povo


    (Ao modo Neno Cavalcante)

    O deputado (e palhaço) Tiririca anuncia que vai deixar a política para voltar aos palcos. Afirma que na Câmara a concorrência à sua profissão original é muito grande.
    ***
    Governador Cid suspendeu verbas para o carnaval em quase cem cidades cearenses, usando como justa-justificativa a grande seca que assola o estado. Não achava isso quando contratou, por mais de meio milhão, Ivete Sangalo para uma simples inauguração em Sobral poucas semanas antes?
    ***
    Incrível (e surpreendente) a agilidade governamental para entregar a obra do Estádio Castelão. Recomenda-se o mesmo “empenho” e “competência” em outras áreas: Infraestrutura. Educação. Saúde. Cultura etc. etc.
    ***

    Shakespeare: Ricardo III e a Ciência (por Theófilo Silva)

    Shakespeare e Ricardo III

    Está nas manchetes de todos os veículos de comunicação do mundo, televisões, jornais, revistas, sites, blogs, facebook:  o esqueleto do rei da Inglaterra, Ricardo III, morto numa batalha em 1487, foi finalmente encontrado no estacionamento de um Shopping da cidade de Leicester. As matérias mostram estudiosos falando da importância da descoberta, e segue-se uma controvérsia sobre a peça homônima de Shakespeare, em que o bardo descreveu Ricardo III como um rei perverso e assassino.

    O que vem a ser essa história, e onde está à verdade no meio de tudo isso? O debate promete ser longo: a ciência contra Shakespeare.

    Ricardo III é uma das primeiras peças de Shakespeare, escrita em 1592 – ele começou a escrever para valer em 1589, aos 25 anos de idade – e faz parte do seu círculo de Peças Históricas.  Ricardo III não é considerada pela crítica uma peça perfeita, pois é possível ver claramente um Shakespeare aprendendo a delinear seus personagens. O drama não tem a maturidade de Sonho de Uma Noite de Verão, Othelo ou qualquer outra de suas obras-primas.


    sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

    PANELINHAS (Pedro Salgueiro para O Povo)


    (alguns dos participantes dos Poetas de Quinta) 


    Quase todos nós temos (ou tivemos), desde criança, nossas inevitáveis e fundamentais “panelinhas”.

    Primeiro, pra mim, veio a “patota” da escola, seguimos juntos até a oitava série, com raras baixas, uns poucos repetiram o ano, outros mudaram de cidade. Ainda hoje quando nos vemos o coração bate mais forte, saudoso...

    Depois veio a “turminha” do futebol, amigos antigos que dividiam sonhos e pelotas. Quase nunca os vejo, empurrados que foram para o “Sul” em busca da sobrevivência. Enorme também é a alegria nos raríssimos reencontros. Vez em quando sonho jogando com eles, os mesmos anseios, as mesmas emoções. Geralmente acordo triste, um vazio fundo cala no peito.