terça-feira, 30 de abril de 2013

DIEGO MORAES (por Alfredo Monte)

A SOLIDÃO É UM DEUS BÊBADO DANDO RÉ NUM TRATOR, de Diego Moraes

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“Manaus é tão triste que às vezes tenho a sensação de estar morto há muito tempo. Quando caminho pelo Porto e vejo barcos ancorados, recordo-me de pessoas que escrevem mal.”  ( Diego Moraes, trecho de Cansaço, em A fotografia do meu antigo amor dançando tango)
“Era tão drogado que escrevia como trem descarrilando e num estilo de matar personagens num jeito só dele.”  (Diego Moraes, trecho de Travadão, em A fotografia do meu antigo amor dançando tango)
“Meu amor é guiar este trator na escuridão.”
“As definições de mágoas foram atualizadas.”  (Diego Moraes, A solidão é um deus bêbado dando ré num trator)
(a resenha abaixo, sem notas de rodapé ou anexo, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de abril de 2013)

O MUNDO INTEIRO É UM PALCO (por Theófilo Silva)


Shakespeare disse pela boca de Jacques em sua peça Como Gostais que “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”. Essa sentença é bem mais longa e encerra uma série de discussões. Quero me deter apenas em um aspecto dela, que é o de apontar um caráter teatral que alguns indivíduos carregam e demonstram mais que outros, mesmo sem nunca terem atuado, ou sequer terem pensado em atuar. São aspectos que fogem ao seu próprio controle e o tornam “uma figura” interessante, até mesmo sem que eles saibam, muito embora algum se achem  uma pessoa “diferente”, “engraçada”,  “louca”.  Gosto muito de chamar alguns amigos de loucos.

Há coisas que só um bom observador é capaz de enxergar.  O ser humano é como um iceberg – Ernest Hemingway pensava assim – em que, uns três quintos dele permanecem submersos, e o que vemos é insuficiente para mostrar seu formato real. Como ele é realmente. Somente o observador sagaz, e aí entra a capacidade do escritor, é capaz de apontar, desvendar, ou mesmo adivinhar uma pequena parte do que está escondido.

KAYA (a nova revista eletrônica do Ceará)

Kaya [revista de atitudes literárias]




Projeto de Dércio Braúna, Kelson Oliveira e Webston Moura, Kaya [revista de atitudes literárias] é um blog muito bonito. Em sua primeira edição, a revista traz, além dos escritos de seus editores, a participação de Clauder Arcanjo, David de Medeiros Leite, Nilto Maciel, Paulo de Tarso Correia de Melo, Pedro Du Bois e Pedro Salgueiro. Em especial, uma página [Iluminuras] para as artes do olhar. Visite Kaya: http://kayarevistaliteraria.blogspot.com.br/.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

LIVROS (Pedro Salgueiro para O Povo)

  
Conheci o Centro da cidade com diversas livrarias. Hoje fico assustado por também não encontrar mais nenhum cinema (com exceção dos vários mini-cines pornôs que resistem às facilidades da internet) e, pasmem, nenhuma livraria: apenas três sebos verdadeiramente na ativa (um deles quase fechando as portas, segredou-me recentemente o desiludido proprietário); lembremos: nenhuma grande livraria existe mais no Centro; nenhum cinema também. Restam três grandes livrarias de shoppings (idem para os cinemas) nos bairros ricos; duas nas proximidades da UFC, uma das quais há tempos anda mal das pernas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

'Deserto' de J.M.G. Le Clézio (trad. Ray Vasconcelos)

Sobre eles, dentre eles, como se não houvesse ninguém

[s/i/c]


'Eles surgiram como se de um sonho'
-extrato do romance Désert [Deserto], de J.M.G. Le Clézio


Saguiet el Hamra, hiver 1909 – 1910

Ils sont apparus, comme dans un rêve, au sommet de la dune, à demi cachés par la brume de sable que leurs pieds soulevaient. Lentement ils sont descendus dans la vallée, en suivant la piste presque invisible. En tête de la caravane, il y avait les hommes, enveloppés dans leurs manteaux de laine, leurs visages masqués par le voile bleu. Avec eux marchaient deux ou trois dromadaires, puis les chèvres et les moutons harcelés par les jeunes garçons. Les femmes fermaient la marche. C’étaient des silhouettes alourdies, encombrées par les lourds manteaux, et la peau de leurs bras et de leurs fronts semblait encore plus sombre dans les voiles d’indigo.
 

Lygia 90 anos (por Alfredo Monte)

Uma prosa toda feita de delicadezas perigosas: Lygia Fagundes Telles

LYGIA
   
antes do baile verde
VER TAMBÉM NO BLOG: http://armonte.wordpress.com// sobre Lygia F. Telles:
http://armonte.wordpress.com/2012/08/06/a-tapecaria-e-suas-dimensoes/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/a-poetica-do-sorrateiro-as-meninas-de-lygia-fagundes-telles/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/o-teatro-da-inocencia/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/ines-nao-e-morta-muito-pelo-contrario/
http://armonte.wordpress.com/2012/08/05/um-classico-do-romance-brasileiro-ciranda-de-pedra/
(as anotações abaixo foram escritas em maio de 2009)

A POÉTICA DO SORRATEIRO
“Assim que comecei a usar a lupa… levei um susto, então era a cara de um inseto debaixo da lente? Fiquei apavorada, aumentados eles eram horríveis! Fui me acostumando quando fui achando que todos esses insetos eram parecidos com a gente nas suas festas. Nas suas brigas. Trabalhavam sem parar e também vadiavam como naqueles ajuntamentos de domingo no largo do Jardim, gostavam de se divertir. E gostavam de brigar e algumas brigas ficavam tão feias que eu fugia com vontade de vomitar. Debaixo da lente era medonho demais”.
(trecho de “A rosa verde”, de A noite escura e mais eu)

Lygia Fagundes Telles está em nova casa editorial. Após a José Olympio, a Nova Fronteira e a Rocco, migrações que fui acompanhando desde os meus 16 ou 17 anos, agora ela está no rol da Companhia das Letras. De saída, foram lançados três dos seus melhores livros,: Antes do baile verde, seleção de contos (1970);, eque será o assunto desta seção, As meninas, seu romance mais prestigiado (1973).. e Invenção e Memória, seu melhor livro recente.

Por uma questão cronológic, e , começo com Antes do baile verde.  Lygia nunca foi uma escritora prolífica em obra, sempre o foi mais em títulos. Excelente estrategista, foi sempre uma antologista de si mesma, recambiando contos daqui e dali e reconfigurando sua carreira. Que fique claro, isso não é uma crítica.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

VERGONHA (por Pedro Salgueiro)

(Chácara Flora, no Benfica)

 
(Dedicada à triste memória do Bangalô Azul e da Chácara Flora,
vítimas da burrice em conluio com a ganância e a incompetência)

Algumas cidades conseguem preservar seu passado, criam leis, instituem penas, fiscalizam construções. A nossa burrinha loura desmiolada pelo sol, não – sente vergonha da sua história. Não há um prédio mais antigo, uma fachada original que cedo ou tarde não seja derrubada, para em seu lugar – altivo e impotente – surgir um daqueles quadrados blocos de concreto que a nossa “genial” e criativa arquitetura moderna andou engendrando durante o século passado inteiro. Tudo bem que nossa acadêmica elite queira construir seus monumentos ao mau gosto, todas as épocas tiveram direito de fazê-lo; porém, contudo, no entanto e entretanto (além do vulgar mas útil “mas”), não precisaria destruir o antigo. Por que não fazê-lo ao lado? – até para que futuras gerações possam comparar e, quem sabe, chegar a uma síntese.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

RENATO RUSSO: ENTRE O APÓSTOLO PAULO E CAMÕES



Monte Castelo

Legião Urbana
Composição: Renato Russo (recortes do Apóstolo Paulo e de Camões).


Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece.

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

É um não-querer mais que bem-querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade
É servir quem vence o vencedor;
É um ter com quem nos mata lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem,
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

* A letra de Renato Russo é uma adaptação do Soneto de Camões e da I Carta de São Paulo aos Coríntios.