terça-feira, 18 de dezembro de 2012

SEM ANUNCIAÇÃO (por Karla Gomes)


De Ana e Manoel nasceu José, preto e raquítico como esperado. Entre os sovacos da Serra Grande, naquela noite do dia 24, nenhuma estrela riscou o céu anunciando sua chegada, também não vieram presentes, mas a morte espreitava acocorada na trempe. 

José cresceu, amou uma mulher e muitas outras, e dele nasceu filhos e netos. Fez fortuna rala, alimentou bocas e sonhos, dividiu com irmãos e amigos o pão de cada dia, abriu suas portas para os loucos, miseráveis e subversivos sem pedir nada em troca. 

Na luta cotidiana, engendrou folguedos e brigas – esperança grande nos homens. 

José não foi Jesus, mas nasceu quase no mesmo dia. Morreu não na cruz, mas deixou grande saudade. 
 
Karla Gomes
 
*Copiado do blog: http://sabicrateus.blogspot.com.br//
 
 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

70 ANOS DE MARIA VALÉRIA REZENDE (por Alfredo Monte)

A VERDADEIRA SENHORA DO DESTINO: o mundo cada vez mais vasto de Maria Valéria Rezende

val
A Valentina, que sem saber me deu um presente tanto para o leitor quanto para o homem, em termos de literatura, amizade e aprendizado de vida. Aqui vai meu agradecimento tardio.
Já contei essa história algumas vezes, mas nunca por escrito:
Um dia, em 2001, encontrei na minha caixa de correio, o exemplar de um livro. Nunca ouvira falar da autora ou da editora. Uma carta o acompanhava:
Prezado Senhor,
   Tomei a liberdade de pedir seu endereço para a ***********[o nome da pessoa não vem ao caso].
   Maria Valéria Rezende é minha irmã.  Sua história de vida, um tanto quanto movimentada e rica, aliada a sua sensibilidade, fez dela uma escritora, conforme atesta Frei Betto no prefácio de “Vasto Mundo”.
   É com muito orgulho que me envolvo pessoalmente no lançamento de seu primeiro livro de ficção.
Etc etc. Fiquei muito bravo. Que folga! Que petulância! Imediatamente liguei para A TRIBUNA solicitando encarecidamente que não fornecessem mais meu endereço em situações similares, em hipótese alguma. Já pensou? Devia de ser uma senhorinha, como tantas as há, que transitam entre a coluna social e o exercício do beletrismo (o nome todo indicava isso: Maria Valéria Vasconcelos Rezende). Como moro na Baixada Santista, sempre fugi de um certo tipo de lançamento bem provinciano, sempre evitei fazer resenhas que só serviriam para vivificar a fogueira das vaidades locais.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

SEGREDOS (Pedro Salgueiro para O POVO)


“O que se diz é que o desejo atual das pessoas de se mostrar, de se exibir, de que sua vida tenha testemunhas (o exemplo citado é o das pessoas que penduram sua vida na internet), talvez seja o resultado de uma nostalgia da velha idéia de que Deus era testemunha de tudo que fazíamos, de nossa vida inteira.”
(Javier Marías, entrevista aO GLOBO)

Numa das poucas pistas que deu para o fato de ter deixado de escrever (ou pelo menos de publicar), Raduan Nassar disse, em rara declaração, que o escritor é como aquele menino que os pais colocam na sala diante das visitas para se mostrar: recitar versos, cantar de cor uma canção, fazer “de cabeça” operações matemáticas, tocar algum instrumento musical ou simplesmente dizer gaiatices.
Sempre me intrigou o motivo que leva alguém a transpor para o papel (hoje a tela) seus segredos mais bem guardados, suas taras mais secretas, seus instintos menos públicos. Deixa-me de cabelo arrepiado (o pouco que tenho) a perspectiva de que um estranho me desvende atrás do novelo de uma frase. Que do emaranhado de palavras brote, para um atento leitor, o monstro que sou (somos todos nós!?) na intimidade do coração.

BRIBA (por Ruy Vasconcelos)

Seu Estimado Animal



A logo da Briba Design,  desenvolvedora de projetos e soluções de design digital com sede em Fortaleza


que animal de estimação mais marcou a sua vida? - perguntou Arthur, o repórter, em mais um instante Selbst-Interview 

e a celebridade Arthur respondeu: fácil, as víboras, lagartixas, traruíras, sardanitas, osgas, bribas, etc. São assim chamadas de acordo com freguês e região. Não confundir com o calango, que é bicho mais asqueroso e cheio de escamas. Ao contrário das bribinhas, o calango está por fora. A briba, no entanto, lembra o Interior, até no nome. No Interior do Ceará, quando víbora foi palavra difícil e proparoxítona, a linguagem mais sábio, do povo, simplificou para briba. E uma casa sem bribas, não é bem uma casa. Um quarto de casa sem elas, não é bem quarto, é algo menor. É quinto ou sexto. Ou sábado
e, no entanto, as bichinhas são, sem dúvida, os animais domésticos mais esquecidos que existem. Embora admiráveis. Não são bobonas como cães. Nem traiçoeiras e malandras como gatos. Não latem. Não miam. Não soltam pelos. Não mordem ou azunham.¹ Não emporcalham a casa

do contrário. trabalham duro, diminuindo o número de insetos ambiente. E o trabalho é voluntário, porque não ganham nem ração, nem carinho

*Copiado do blog http://afetivagem.blogspot.com.br//                                                                           


**Destaco este interessante texto do jornalista Plínio Bortolotti sobre o tema:

 
Por: Plínio Bortolotti | Comentários:
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Quando li “osga”, sabia que era lagartixa, não por ser palavra comum, de uso corrente. Eu a ouvi uma única vez há mais de vinte anos quando eu e uma amiga mineira observávamos algumas bribas (é assim em cearensês) caçando insetos na parede.

Minas Gerais
Ela me contou, então, que em Minas Gerais, se diz estar “caçando osga” para quem fica absorto, pensativo, com o olhar perdido; em São Paulo dir-se-ia “no mundo da lua”; no Ceará, que o sujeito está “pensando na morte da bezerra”. Fiquei com a ideia que “osga” fosse usada na linguagem informal mineira.
Pois bem, defrontei-me novamente com “osga” no livro “O vendedor de passados”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, que me chegou às mãos por empréstimo da amiga Regina Ribeiro, editora das Edições Demócrito Rocha. Óbvio, portanto – se Agualusa a utiliza do outro lado do oceano -, “osga” não poderia ser apenas um regionalismo mineiro.

Cearensês
Fui a dois dos mais importantes dicionários brasileiros: o Houaiss e o Aurélio, ambos classificam a palavra como “regionalismo”: Norte e Nordeste (Houaiss) ou Amazonas, Pará e Maranhão (Aurélio), dando-lhe “lagartixa” como sinônimo, além de “aversão entranhada; asco, repulsa”.
Consultei o melhor dicionário de cearensês, o “Vocabulário popular cearense”, de Raimundo Girão, que tem o verbete “OSCA – s. f. Porcaria, excremento: ‘osga de galinha’. ‘Uma osga’ significa ‘uma ova’, ‘pra lá’. Do árabe: usga”, sem registrar “lagartixa” como sinônimo.

Dicionário do Nordeste
Apelei ainda ao meu amigo virtual, Fred Navarro, autor do Dicionário do Nordeste (um dos mais completo em termos nordestinos), no qual não encontrei “osga”. Conversei com ele, via e-mail, e Fred me disse que na próxima edição do seu dicionário (previsto para sair em setembro) constará o verbete, tendo como base o Aurélio e o Houaiss.
Interessante é que nem no Houaiss e nem no Aurélio citam “osga” como regionalismo de Minas Gerais. Consultei na internet alguns dicionários de expressões populares mineiras e encontrei a palavra como sinônimo de lagartixa, como dissera a minha amiga.

Eulálio
A propósito, a osga é um importante personagem no livro de Agualusa. Tem até nome, Eulálio, uma osga macho, portanto. O nome próprio da osga diz muito do que ela (ele) é no livro. Se você consultar o dicionário mudando o gênero do nome para o feminino, excluindo o assento agudo, terá uma boa ideia de qual é o papel de Eulálio no livro (isto é, se você ainda não o tiver lido, o que, nesse caso, recomendo).

Mais osgas
Fred Navarro me manda mais sinônimos de lagartixa, isto é de osga: labigó (PI); catonga (SE); catenga (N.E.); carambolo (MA e PI). Documentadas e abonadas, segundo o Fred. [acrescido em 12/3/2012]

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

3 CEARENSES NA ANTOLOGIA BREGA "ASSIM VOCÊ ME MATA", Org. Cláudio Brites

(Natércia Pontes)

(Pedro Salgueiro)

(Xico Sá)

Lançamento do livro “Assim você me mata”, na Balada Literária

[Veja o que já saiu sobre o livro no Globo e no Diário do Nordeste.]
Aconteceu em São Paulo, no dia 2 de dezembro, às 14 horas, durante a Balada Literária, o lançamento da coletânea Assim você me mata, com contos inspirados no universo brega.
O time inclui escritores já consagrados, como Xico Sá, João Anzanello Carrascoza, André de Leones e Marcelino Freire, entre outros.
A lista completa dos autores: Adrienne Myrtes, Alessandro Garcia, André de Leones, Caio Silveira Ramos, Daniel Lopes, Eric Novello, João Anzanello Carrascoza, Kizzy Ysatis, Luciana Miranda Penna, Marcelino Freire, Marcelo Maluf, Natércia Pontes, Pedro Salgueiro, Petê Rissatti, Plinio Camilo, Reynaldo Bessa, Ricardo Delfin, Santana Filho, Valério Oliveira e Xico Sá.

* A antologia pode ser encontrada (ou encomendada) nas livrarias de Fortaleza: Cultura, Siciliano, Arte & Ciências etc.

Título: Assim você me mata
Organizador: Claudio Brites
Editora: Terracota

Gênero: Contos
Páginas: 204
Preço: R$32,00

 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

JOSÉ PAULO PAES por RODRIGO NAVES



Um homem como outro qualquer

Desprezando a ostentação de brilhantismo, José Paulo Paes escrevia para pessoas que, como ele, não tinham formação universitária. Trabalhava numa perspectiva na qual a cultura mantém a vocação universalista e democrática.
por Rodrigo Naves

José Paulo Paes era um homem avesso a ênfases no escrever, no falar e no proceder. Detestava chamar a atenção e seu comportamento discreto era, num homem constante, talvez a constância predominante. Em situações sociais, parecia se ocupar sobretudo com sua bengala, girando-a lentamente diante dos olhos. Chegou mesmo a homenageá-la:

contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MINICONTOS (Pedro Salgueiro para O POVO)


"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá" - Augusto Monterroso, "O dinossauro"
Talvez por preguiça, sempre tive fascínio por textos curtos. Frases aparadas até quase o miolo. Gracilianos, Rulfos, Moreiras e João Cabrais limando adjetivos. Procurando substantivos que dispensem adereços, penduricalhos. Nenhum preconceito contra os caudalosos rios Euclidianos, Proustianos, Joyceanos, Roseanos. Apenas predileção e pronto. Ponto.

Sempre desconfiei que nós, os pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário no qual vamos nos expressar. Mas ele, irremediavelmente, nos escolhe. Tenho certo amigo que até pra me passar um número de telefone conta seu dia inteirinho. Outro, inquirido, me deixa apenas fragmentos de suas intenções. Claro que alguns podem, e até devem, ir contra a corrente. Deslizar rio acima, olhos estufados de lama. Alma pesada, mas satisfeita.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

AS RECEITAS REVISITADAS: QUEM PROVA? (por Ruy Vasconcelos)



As receitas revisitadas: quem prova?

miolo de pote, caldo de galinha, muito pão e pouco vinho, abobrinha, feijão com arroz, farinha do mesmo saco, angu de caroço, zona do agrião, caranguejo em mês que não tem r, feijão de chegou mais um, bolo de enganar tolo, o que cair na rede, favas contadas
escolha sua receita de hoje. consciente. afirmativo. não como devoção a uma dessas estúpidas baladas pop, que passam o recibo de nosso capricho extremo.
e certa debilidade mental.

(mas, que mal lhe pergunte: quem vive sem elas?)

* Copiado do seu blog http://afetivagem.blogsppot.com.br//

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

FINADOS (por Pedro Salgueiro)


O juremal cinzento, a terra esturricada, o sol amarelado de queimada eterna já prefiguram a seca cruenta nem bem entramos na estrada de Canindé. Mas a quantidade e a variedade dos automóveis nos segredam que ainda permanecemos com um pé na capital. E só quando saímos da terra de São Francisco em direção a Tamboril é que realmente nos sentimos dentro desse imenso país chamado Sertão.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

50 VERSÕES DE AMOR E PRAZER (Contos Erótico Femininos): Org. Rinaldo de Fernandes


EM BREVE NAS LIVRARIAS A MAIS NOVA ANTOLOGIA DE CONTOS ORGANIZADA POR RINALDO DE FERNANDES, PELA GERAÇÃO EDITORIAL (SP).

AS AUTORAS QUE INTEGRAM A ANTOLOGIA:
ANA MIRANDA, ANA PAULA MAIA, ANDRÉA DEL FUEGO, ANA FERREIRA, ÁLLEX LEILLA, CECILIA PRADA, HELOISA SEIXAS, JULIANA FRANK, LEILA GUENTHER, LUISA GEISLER (AUTORA DE APENAS 21 ANOS E QUE É UMA DAS REVELAÇÕES DA LITERATURA BRASILEIRA), MÁRCIA DENSER, MARILIA ARNAUD E A CEARENSE TÉRCIA MONTENEGRO.


 

 
RINALDO DE FERNANDES LANÇA COLETÂNEA
DE CONTOS ERÓTICOS DE ESCRITORAS BRASILEIRAS

Coletânea, que está saindo pela Geração Editorial (SP), será concorrente nacional do best-seller Cinquenta tons de cinza

 
50 versões de amor e prazer – 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras, livro organizado pelo professor de literatura da UFPB e escritor Rinaldo de Fernandes, é um concorrente nacional, mas primando pelo grande valor das narrativas, pela grande qualidade das autoras, do best-seller Cinquenta tons de cinza. O livro está saindo pela Geração Editorial (SP) e chega às livrarias de todo o país daqui a duas semanas.  

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

RESENHA e POEMA de RUY VASCONCELOS


Turbulência, anti-distônicos e amor como espectro: uma biografia de David Foster Wallace





Every Love Story Is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace, por D.T. Max, Granta, 352 ps. - (lançada em setembro passado)

Toda História de Amor é uma História de Fantasmas é o título da primeira biografia sobre o mais recente herói literário dos Estados Unidos: David Foster Wallace (1962-2008). E Foster Wallace é conhecido sobretudo como o autor de Infinite Jest [Pilhéria Infinita]. O romance é um calhamaço de mais de mil páginas passado em um distópico país norte-americano, que engloba também o Canadá e o México, além dos Estados Unidos, num futuro sombrio e meio pantagruélico. A unidade política leva a sigla galhofeira de O.N.A.N., numa clara referência satírica de endereço certo: a ONU, o Nafta, os projetos pós-modernos de blocos de países, tais como a União Europeia, que ora balança como um castelo de cartas. (E dentro da qual ex-potências coloniais ameaçam liquefazer-se antes mesmo de receberem o resgate econômico e verem sua soberania evaporar em favor de um Banco Central Europeu comandado com mão de ferro e nervos de aço pelos obstinados alemães. E é preciso recordar o quanto a figura de Hitler era uma das obsessões (e dos pavores) do autor da Jest).

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

RAIMUNDO SOLDADO (por PEDRO SALGUEIRO)


 

                                                                 

 

 

NO CARNAVAL


Quando você foi embora...

Nem bem deu sexta-feira e a Luzanira sumiu, mas só notaram sua falta à hora de dormir – a rede estirada no canto da sala permanecia murcha –, aí foi um procura aqui e acolá dos diabos. Todos os recantos da casa e do quintal minuciosamente vasculhados, a rua inteira – de porta em porta – acordada, causando um frenesi apenas abafado pelo som dos blocos que passavam vez por outra na rua de trás. (Lourival, então, era o mais nervoso.)
... Meu coração quase parou.
Pela madrugada os vizinhos iam se recolhendo, cada um tinha uma versão do sumiço; e somente os de casa não pregaram olhos naquela noite; continuaram a ouvir o barulho dos blocos até de manhã, quando então abriram as portas e foram novamente bater à casa dos vizinhos. (E, pra variar, recorreu à fiel companheira de sempre.)
Foi somente tristeza que você me deixou...
Já passava do meio-dia quando tomaram a decisão de denunciar o caso à polícia; deram parte, responderam às perguntas do escrivão. Prometeram investigar com a ajuda de um retratinho. A família dividiu-se em meio a um pequeno bate-boca: uns resolveram voltar para casa lamentando o ocorrido, outros partiram para os hospitais; a irmã caçula – a mais sonhadora – decidiu ir à rádio, para divulgar a notícia entre um samba e outro. Cansados, somente à noitinha tiveram coragem de procurar no necrotério, onde a busca do corpo entre os dos indigentes foi inútil. (Zonzo, suado e frio, via a todos como imensas mariposas em volta da lâmpada.)
Não tem jeito que dê jeito...
Os cinco dias de transtorno foram enfrentados a calmante e chá de cidreira, além do apoio constante da vizinhança. (E ele lá, resistindo, entre a peixeira e a saudade.)


Pra você viver comigo.
E sequer amanheceu a quinta-feira, lá estava a Luzanira ao pé da porta. O rosto baixo buscava os pés de quem se aproximasse, a roupa e o cabelo brancos de maisena – apenas balançava a cabeça de baixo para cima, ou de um lado para o outro, conforme fosse a pergunta. (Às vezes, as lágrimas vencendo a raiva.)
De hoje em diante, nós vamos ser dois simples amigos.

(*) Temática do conto e frases retiradas da canção “Não tem jeito que dê jeito””, do mega-pop-star maranhense (de Timon) Raimundo Soldado.


PEDRO SALGUEIRO

CHICO ALVIM EM FORTALEZA

O poeta dos outros

Em passagem por Fortaleza, o poeta Francisco Alvim, celebrado como um dos maiores autores brasileiros vivos, falou sobre sua poesia e o eterno risco da palavra

    IGOR DE MELO
    Alvim: "o leitor tem que ter essa reação muscular, tão intensa quanto quem está escrevendo"

    “Pois a poesia/ quando ocorre/ tem mesmo a perfeição/ do metro —/ nem o mais/ nem o menos/ — só que de metro nenhum/ um metro ninguém/ um metro de nadas” - trecho do poema “O Metro Nenhum”,
    de Francisco Alvim

    O poeta mineiro Francisco Alvim esteve pela primeira vez em Fortaleza semana passada, como convidado do Festival UFC de Cultura para lançar seu último livro, O Metro Nenhum (Companhia das Letras, 2011). Diplomata aposentado, Alvim surgiu como poeta na primeira geração da “poesia marginal”, ao lado de nomes como Cacaso, Geraldo Carneiro, Chacal e Roberto Schwartz, na década de 1970, publicando suas primeiras obras em edições artesanais - foi o caso de Sol dos Cegos (1968) e Passatempo (1974), entre outros.
    Apesar da carreira de mais de quatro décadas, nunca foi de escrever muito. O Metro Nenhum, por exemplo, saiu mais de 10 anos depois de Elefante (2000), até então sua última edição de poemas inéditos. Aos 74 anos, reconhecido como um dos grandes poetas vivos do País, ele ainda prefere prestar homenagem aos seus grandes mestres e se diz talvez tão ou mais inseguro do que quando ainda era um aspirante à arte poética.

    O POVO – O título do seu último livro remete a uma capacidade da poesia de apreender o que não tem tamanho. É assim que o senhor a concebe?
    Francisco Alvim - A poesia é em si uma coisa extraordinária. É uma aderência que a poesia tem às coisas, não só aos objetos, a tudo, é uma aderência que a prosa não tem. O que significa essa aderência? Ela capta realmente uma quantidade de ângulos e dimensões e não tem compromisso, vamos dizer assim, com a lógica dos fatos, a sequência dos fatos, a realidade que ela cria é uma realidade que de certa forma transcende a coisa imediata em si, as aparências da coisa, não é uma transcendência espiritualizada, é uma transcendência da própria matéria, é uma complexidade de matéria que a poesia tem... Isso dificulta muito também, porque nem tudo é poesia, e o que não é poesia aparece... A poesia é um gênero frágil – o que não é, boia. Às vezes você acha que está fazendo uma poesia, mas você não está fazendo um poema, você está se iludindo, está iludindo o próximo. Quer dizer, é um gênero complicado.


    terça-feira, 23 de outubro de 2012

    CEARENSE SIDNEY ROCHA GANHA O JABUTI

    Tragédias de libertação

    Com o olhar voltado para as sutilezas de pequenas tragédias cotidianas, o cearense Sidney Rocha venceu o Prêmio Jabuti 2012 na categoria contos e crônicas com o livro O Destino das Metáforas. A publicação está sendo traduzida para o alemão e será lançada em Frankfurt
     
     
      DIVULGAÇÃO
      Sidney: reverência a autores cearenses como Gilmar de Carvalho e Pedro Salgueiro
       

      Foi com vontade de “reinventar o mundo” que, na década de 1980, Sidney Rocha deixou seu amado berço para conquistar terras mais distantes. Por vezes, chegou a julgá-las impossíveis. O jovem de outrora, natural de Juazeiro do Norte, hoje vive divido entre São Paulo e Pernambuco. Quase trinta anos depois da migração, mesmo exibindo alguns grisalhos fios de cabelo, não deixou morrer sua ânsia por liberdade, conquistada através das palavras.


      quarta-feira, 26 de setembro de 2012

      DOM AIRTON DAS PERNAS FINAS (Pedro Salgueiro para O Povo)


      (Airton Monte posando para a revista Para Mamíferos)

      Nosso cronista Airton Monte tem sido tratado com bastante reverência, seriedade e pompa, advindas, claro, de sua cruel doença e lamentável morte. Aliás, como toda morte deve ser, sim, tratada. Mas me pego imaginando ele presente em seu velório, solenidade de cremação, missa de Sétimo Dia, escondido por trás de todos, rindo de toda aquela solenidade, com o traquino riso fácil que era muito dele: do escárnio de quem ria de tudo, de quem “gozava” do mundo, de quem “mangava” de todos.

      Não, eu não fui seu amigo íntimo, nem seu camarada-irmão, muito menos tomei homéricos porres com ele em seus idos tempos de Estoril, também jamais passeei em sua companhia pela velha Iracema de todas as saudades. Sou de uma geração posterior. Quando comecei a rabiscar minhas primeiras letras, fazia muito ele tinha deixado de escrever contos. Acabara de assumir a página diária d’O POVO que havia sido de seu grande amigo Rogaciano Leite Filho. De lá pra cá, o tenho lido quase que diariamente, a ponto de sentir saudades quando ele tirava férias: pegava-me automaticamente indo à sua página toda manhã.


      quarta-feira, 12 de setembro de 2012

      BULCÃOZIM (por Pedro Salgueiro para O Povo)


      Não lembro bem onde conheci o escritor Manuel Soares Bulcão Neto (e se não me engano esta é a primeira vez que pronuncio seu nome assim, completo, e também que o adjetivo de escritor), se na casa da amiga Ana Miranda, se no nosso covil barulhento do Assis da Gentilândia. Lembro, sim, que com meia hora de conversa já parecíamos amigos de infância, tamanha era a capacidade do nosso novo amigo de nos deixar completamente a vontade.
      Foi, sem dúvida, a pessoa mais sem “frescuras” que conheci, mais sem “burrocracias” para os nefandos protocolos da vida. De início descobrimos um traço em comum: ambos “perdiam o amigo, mas não perdiam a piada”. Éramos muito parecidos em nossas “pequenas e inofensivas crueldades”, ele gostava de ressaltar. Uma vez me disse: “Mas você é mais cruel do que eu”, no que eu retruquei: “Apenas sou mais grosseiro, rude. Você teve uma educação mais refinada... É um filósofo!” Ele já ria, descobrindo em minhas palavras apenas uma gozação à sua condição de filósofo autodidata.

      A MULHER NO AQUÁRIO (por AIRTON MONTE)


      Sentido horário, sentados: Pedro Salgueiro (só a careca), Nilto Maciel, Jorge Tufic e Soares Feitosa (direto do expediente, ainda com a roupa de advogado); em pé: o jovem Diego e seu pai, o poeta Dimas Macedo; Ary Albuquerque, Edilson Braveza, B. C. Neto, José Maria Barros Pinho e Airton Monte. Fortaleza, jardins da Reitoria da UFC, solenidade de lançamento dos livros do vestibular, autores Pedro Salgueiro, Airton Monte e Virgílio Maia, abril de 2005.
                    
      É claro que eu a mantinha escondida, debaixo de sete chaves, uma mulher no aquário, de talhe esbelto, espinhaço grego, uma contida fúria nordestina, estanho nos cabelos, busto farto, abdome terso, ventre cavado, coxas longas e firmes e uns olhos de poço artesiano.
               
      Traz ela algo de marfim no que se move, nada, fala, dança. Eu a olho, meio espanto e meio susto, e na minha boca vem um gosto de maracujá.
              
      A princípio, pensei tratar-se de um presente insólito de minha imaginação, realmente vívida das mulheres que perdi ou me perderam. O que estraga o ser humano é a memória, fonte de todos os remorsos. Sem memória, talvez doesse menos viver.


      terça-feira, 4 de setembro de 2012

      UM ABISMO ENTRE VERDADE E AFETAÇÃO ARTÍSTICA (por Chico Lopes)

      A atriz Kim Novak, cuja carreira, já nos anos 1960, havia sucumbido à chegada de novas estrelas, mais “naturais” que as dos anos anteriores, não teve grande brilho em sua trajetória no cinema (hoje é uma idosa reclusa, casada com um veterinário, há muito tempo sem filmar). Foi em geral considerada, apesar de bela, uma atriz fraca, muito fria e alheia em seus papéis. Mas conheceu um triunfo (e não é dos pequenos) – foi a mulher dupla, Madeleine Elster/Judy Barton, em “Um corpo que cai”, a obra-prima suprema de Alfred Hitchcock.

      O filme agora chegou aonde merecia estar há muito tempo: no topo da lista dos críticos da revista “Sight and Sound”, derrubando “Cidadão Kane” para o segundo lugar, e Kim, a despeito de suas fraquezas, pode se orgulhar de ter alcançado o que poucas atrizes ou estrelas mais talentosas que ela conseguiram.

      quarta-feira, 29 de agosto de 2012

      A HORA DO POBRE (Pedro Salgueiro para O POVO)


      O Presidente Vargas, o nosso simpático PV, é o estádio de futebol mais querido de estado do Ceará. Simples e aconchegante, possui a característica singular de estar situado em um bairro central, o Benfica, mais precisamente na Gentilândia, capital amorosa do citado bairro. Querido por todos, mas bastante negligenciado pelo poder público e mesmo pelos próprios frequentadores por décadas, vivia rachado em suas estruturas de cimento, feio por fora e por dentro, uma lástima: seus muros e bilheterias serviam de banheiro público para os feirantes da pracinha ao lado.
      Invariavelmente todos se sentiam bem, apesar da sujeira e desorganização que reinavam. Era, podia se dizer, um estádio popular. Preços mais baixos, acesso facilitado para carros, bicicletas, e até mesmo a pé, pois facilmente chegavam turmas de torcedores de vários bairros em caminhadas, verdadeiras peregrinações.

      quinta-feira, 23 de agosto de 2012

      UM CIGARRO DEPOIS (por Ruy Vasconcelos)

       



      para chegar à conversa a qualquer hora.

      Nada como ter menos de trinta. As possibilidades de conversa imantam alguns botecos a partir do balcão. As conversas é que estão lá, esperando pelos donos. Penando em noites sem dança para os lados do Meireles

      o balcão, aliás, é o último recurso antes da meia-idade. O balcão é o desenlace definitivo antes da vida respeitável. Sinopse daquelas grandes mesas, onde todos se reconhecem, já tomaram alguns porres. Ou dormiram juntos. Ou vão tomar. Ou dormir. Ou deram alguns vexames. Ou vão dar


      quarta-feira, 22 de agosto de 2012

      BROKEBAACK MOUNTAIN (por Trompson Loiola para a UOL-Cinema)

      No conto "Brokeback Mountain", de Annie Proulx, os caubóis são feios e toscos
      THOMPSON LOIOLA
      Colaboração para o UOL
      ANNIE PROULX
       
      Heath Ledger e Jake Gyllenhaal em Brokeback Mountain, baseado no conto de Anne Proulx


      A escritora Annie Proulx não fala mais sobre "Brokeback Mountain", seu conto publicado pela primeira vez em outubro de 1997 na conceituada revista norte-americana "The New Yorker". Proulx (pronuncia-se "prul"), senhora de 70 anos, vive em uma região rural do Wyoming, estado no centro-noroeste dos Estados Unidos, que faz divisa com Utah e Colorado, ao sul, e Montana, ao norte. Segundo ela, o assédio em torno da história estava comprometendo sua rotina de escritora.

      segunda-feira, 13 de agosto de 2012

      A queda em questão no mais romântico e pessimista dos filmes (por Chico Lopes)


      Ela passa. Não é, no entanto, um passar comum. Para que passasse por diante da câmera, para que fosse vista por um certo detetive, foi rigorosamente vestida e preparada por um homem muito esperto e maldoso, que precisava enganar alguém. Ela desliza, se exibe, submete-se ao exame do personagem. E ao nosso. Fisgando o homem para quem desfila, fisgou-nos. Ela é Madeleine, o impostor é Galvin Elster e o detetive, Scott.

      Fomos fisgados por Hitchcock, o verdadeiro manipulador, o artífice dessa cena que não se pode esquecer. Que Scott, a seguir, já apareça no encalço dessa mulher pelas ruas de San Francisco, nos parece a coisa mais natural do mundo. Ele tinha conversado com Elster, que expusera o triste caso da esposa e de suas estranhas perambulações pela cidade, ele não quisera aceitar a tarefa de segui-la e descobrir suas intenções. Elster lhe pedira que fosse vê-la no restaurante Ernie´s e, claro – era preciso apenas que a visse para que a amasse. Nada de dizer “aceito a missão”. Para quê? Está tudo na imagem. Hitchcock é o rei das elipses significativas.


      quarta-feira, 8 de agosto de 2012

      O QUINTAL DOS PÁSSAROS (Pedro Salgueiro para O Povo)

      

      Sou apaixonado por pássaros desde a infância.

      Como fui criado em quintais enormes, misturado com uma infinidade de irmãos, primos e amigos, livres e inventando todo tipo de brincadeira, caçar passarinho era uma das mais cotadas; certa espécie de ritual de passagem a uma idade menos inocente. Procurávamos forquilhas as mais perfeitas possíveis, botávamos para secar o cabo de marmeleiro que não rachava e era bem lisinho, descascávamos com paciência e depois bastava encontrar pedaços de câmara de ar de bicicleta para compormos nossas baladeiras. Minto, ainda faltava as “fundas”, pequenos pedaços de couro onde se colocavam as pedras, facilmente encontradas na oficina de meu pai sapateiro. Distribuía os pedacinhos de vaqueta entre os amigos, que em troca me davam as tiras de borracha.


      sexta-feira, 27 de julho de 2012

      "Sociedade Secreta dos Melancólicos" (Otto Maria Carpeaux sobre Jens Peter Jacobsen)

      (família Jacobsen)

      (Otto Maria Carpeux) 

      AS NUANÇAS DE
      JENS PETER JACOBSEN

      OTTO MARIA CARPEAUX

      Contribuindo à definição da nossa época, poder-se-ia dizer: é uma época sem nuanças. O espírito dominante, coletivista, não as suporta e não as tolera. Desafiando a frase brilhante e venenosa de Renan — "la vérité est une nuance entre mille erreurs"1 — a nossa época prefere as verdades simplificadas, "verdades em bloco", dogmáticas, das quais a nuança seria uma heresia. Faltam as nuanças entre as cores locais, duramente justapostas, dos pintores; faltam as nuanças na língua homofônica dos músicos. E quem procuraria nuanças no pão quotidiano dos intelectuais e dos pobres, no cinema? Estamos coletivamente felizes, isto é, profundamente infelizes, mas também sem nuanças. Morremos mesmo, todos, sem nuanças, a mesma morte.

      Neste mundo, duma só cor e ruidosamente unânime, ressoa, em voz muito baixa, a reza do poeta, a reza de Rilke:
      "Dá, ó Senhor, a cada um a sua própria morte."

      Sei em que Rilke pensou escrevendo este verso. Foi o mesmo em que pensou ao escrever, no romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge, as frases inesquecíveis: "Para fazer um verso, precisa-se ter visto muitas cidades, homens e coisas. Precisa-se ter experimentado os caminhos de países desconhecidos, despedidas longamente pressentidas, mistérios da infância não esclarecidos, mares e noites de viagens. Não basta mesmo ter recordações: precisa-se saber esquecê-las, precisa-se possuir a grande paciência de esperar até que elas voltem. Pois as próprias recordações não o são ainda. Antes, as recordações devem entrar em nosso sangue, nosso olhar, nosso gesto; quando, então, as recordações se tornam anônimas e não se distinguem do nosso próprio ser, então pode acontecer que, numa hora rara, nasça a primeira palavra dum verso." Pensou Rilke na mesma pessoa, quando fez do herói do seu romance um dinamarquês. Pensou no poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen.


      PLÁGIO? (por Alfredo Monte)

      Leituras em espelho: MAX E OS FELINOS e VIDA DE PI

       


      (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de julho de 2012)

      Há dez anos, uma controvérsia cercou a premiação de A vida de Pi (Life of Pi, 2001) com o Booker Prize, o mais prestigiado da língua inglesa: o livro de Yann Martel plagiara  Max e os felinos (1981), de Moacyr Scliar? Em ambos, o jovem sobrevivente (um alemão fugindo do nazismo rumo ao Brasil, em Scliar; um indiano, cuja família administrava um zoológico e que resolve emigrar para o Canadá, em Martel) de um naufrágio, protagonista do relato,  tinha de conviver num bote salva-vidas com um felino imponente (um jaguar, no autor brasileiro; um tigre-de-Bengala, no canadense).
        

      MANGANGÁ (Pedro Salgueiro para O Povo)

      (mangangá)

      A lembrança é este besouro mangangá, que de repente nos assusta com seu zunido grosso quando passamos por qualquer caminho. Crianças, tentávamos descobrir de onde vinha o tal zumbido forte — se da boquinha quase invisível, se das asas fortes que mais pareciam feitas de alumínio: ele sempre nos pegava de surpresa num vôo rasante para sumir logo em seguida na direção das cercas e depois de várias investidas acertava o buraco na estaca e sumia no oco da madeira. Perscrutávamos um minuto, vacilantes: tentando adivinhar a direção seguida, e com o tempo aprendemos a dar leves toques na madeira, descobrindo pelo som a parte ocada, em seguida aprumávamos um vidrinho de remédio vazio ou mesmo uma caixa de fósforos (mas somente em último caso, pois esta não nos permitia enxergar o besouro depois de preso); após colocarmos cuidadosamente o frasco no buraquinho (aí um de nós assumia a tarefa, geralmente o maior, pois era a tarefa mais difícil: que precisava de firmeza nas mãos, paciência e sangue frio para ver o mangangá passando a poucos centímetros dos dedos), dávamos golpes de pedras em toda a extensão da estaca, acompanhando com os ouvidos a trajetória, os avanços e recuos do voadorzinho acuado — levávamos às vezes manhãs inteiras desentocando um deles (e os menores eram os mais trabalhosos, coisa que não entendíamos, porém aceitávamos como mais uma verdade entre as tantas que íamos aos poucos descobrindo: e as tardes eram gastas nas análises, questionamentos e hipóteses a respeito do nosso prisioneiro: das simples elucubrações dos coleguinhas mais novos às mais complexas especulações dos mais velhos (e ali fazíamos os nossos primeiros embates mentais, pois até então apenas havíamos usado a força, nas brigas e partidas de futebol): quem tinha mais criatividade conquistava o respeito e a admiração dos outros, e não raramente os papéis se invertiam: aqueles mais fortes nas arengas e nas brincadeiras tornavam-se fracotes nesse jogo sutil de hipóteses e divagações.


      quarta-feira, 18 de julho de 2012

      DA PREGUIÇA COMO MÉTODO DE GUERRILHA (por Pedro Salgueiro)

       

      Desde que me entendo por gente sou um sujeito lesado. Minha mãe diz ter suspeitado até quase o oitavo mês de que eu não nasceria, tamanha era minha imobilidade intrauterina: não chutava, não me virava, permaneci (para desespero dela e do médico) quietinho até a véspera do parto. Até a véspera não, até a hora exata, pois mesmo já enxergando a luz forte vinda da janela do quarto de minha avó ainda aproveitei para uma última e descompromissada cochiladinha dentro daquele líquido quentinho.

      Claro, não sou bobo, que nasci a fórceps.


      segunda-feira, 9 de julho de 2012

      CONTOS INÉDITOS DE FAULKNER (por Alfredo Monte)

      A pulp fiction de Faulkner: “Lance Mortal” (“Knight´s Gambit”)


      (resenha originalmente publicada—sem a citação inicial e as notas de rodapé—em  A TRIBUNA, de Santos, em 03 de julho de 2012)

      “Como promotor  do condado, ele nada tinha a fazer ali, mesmo que não tivesse sido um acidente.  Sabia disso. Ia olhar o rosto do homem morto por uma razão sentimental. O que era agora o condado de Yoknapatawpha fora fundado não por um único pioneiro, mas por três ao mesmo tempo. Eles vieram juntos a cavalo, através do desfiladeiro Cumberland, das  Carolinas, quando Jefferson ainda era um posto da Agência Chicasaw, e compraram terra na área indígena e estabeleceram famílias e prosperaram e desapareceram, e agora, cem anos depois, havia no condado que eles ajudaram a fundar um único representante desses três nomes.
        
      E ele era Stevens, porque o último da família Holston falecera antes do final do século passado, e Louis Grenier, cujo rosto morto Stevens estava dirigindo 12 quilômetros no calor de uma tarde de julho para ver de perto, nunca soube que era Louis Grenier.  Ele não podia nem soletrar Lonnie Grinnup como ele mesmo se chamava…”
      (trecho de Mãos sobre as águas)

      No dia 6 deste mês faz 50 anos que William Faulkner morreu. Dos vários títulos da sua obra que a Editora Benvirá acaba de lançar, o único ainda inédito por aqui é Lance Mortal, coletânea de cinco contos e um pequeno romance, publicada originalmente em 1949, no momento em que o mais genial dos ficcionistas norte-americanos (e, na minha opinião, o maior escritor do século XX, junto com Thomas Mann) ganhava o prêmio Nobel.

      terça-feira, 3 de julho de 2012

      O PRISIONEIRO NO ESPELHO (Pedro Salgueiro para O Povo)


      O pobre do cronista, acuado pela falta de assunto, vive à procura de um personagem na multidão de anônimos que pululam pelas ruas de nossa escrotinha loura desmazelada pelo sol. Um perneta ali, um careca acolá, bem adiante um velhote de pente no bolso e brilhantina no cabelo ralinho (cuidado há de ter o infeliz do escrevinhador desocupado, pois, como assegura nosso cronista maior Airton Monte, negro não é mais negro, gordo não é mais gordo, pobre não é mais pobre, nem puta é mais puta, então se procura logo, para não criar problemas com ninguém, um danado de um eufemismozinho de meia-tigela).
      Dia desses encontrei um personagem que não tinha lá muitos predicados físicos que o destacasse da maioria ignara: altura normal, magreza sem graça, uma feiúra quase suportável. Tirante a canela finíssima e uns olhos esbugalhados, passaria despercebido em qualquer fila de banco.

      segunda-feira, 18 de junho de 2012

      JAMES JOYCE segundo Alfredo Monte

      A terceira margem do riverrun joyceano: uma nova tradução de “Ulysses”



      “Há o terrível risco da solenidade, que transforma tanto leitores quanto escritores em grandes carrancudos. Joyce escreveu Ulysses para entreter, para realçar a vida, para dar júbilo. É fácil demais destruir a vida alada, não tanto prendendo-a quanto ruminando-a.”(Anthony Burgess, Homem Comum Enfim)

      I
      Não pensei que viveria para ver uma terceira tradução de Ulysses e pouquíssimos anos após a segunda (a de Bernardina da Silveira Pinheiro, lançada em 2005, passados 40 anos da primeira, a de Antônio Houaiss). O autor dessa façanha, que acontece no 90º. aniversário do romance de James Joyce (1882-1941), é um jovem curitibano (nasceu em 1973), Caetano W. Galindo, que consegue transpor para a nossa língua um livro exigente sem torná-lo quase intragável (como fez Houaiss, respeitando-se o seu tour-de-force) nem enfraquecê-lo fugindo das soluções mais difíceis (como fez Bernardina, idem). A meu ver, finalmente Ulysses e o leitor brasileiro encontram-se de fato.

      O BIZARRO E O POÉTICO EM TÉRCIA MONTENEGRO (por Rinaldo de Fernandes)

      É da força dos contrários que Tércia Montenegro extrai a substância de seus contos em O tempo em estado sólido, livro vencedor do Prêmio Governo do Estado de Minas Gerais 2010, publicado agora, em 2012, pela Ed. Grua, de São Paulo.

      Tércia é uma contista tchekoviana. Pouco enreda e extrai das situações narradas sentidos fortes, profundos, da natureza humana. Consegue em poucos passos jogar o leitor na interioridade intrincada de seus personagens.


      segunda-feira, 11 de junho de 2012

      O CONTO NA TERRA DO CONTO (Pedro Salgueiro para O POVO)

       (Vidas Marginais, de Moreira Campos)
      O conto é o gênero literário mais cultuado no Ceará (alguém já afirmou que temos mais contadores de histórias que bodegueiros). Rara foi a geração que não nos deu pelo menos meia dúzia de bons contistas. Mas raros são os excepcionais, visto que o gênero é difícil, escorregadio, enganoso, muitos acham que basta contar uma anedota interessante, alinhavar bem um caso curioso, para obter êxito.

      (Moreira Campos)
      Atualmente temos pelo menos quatro gerações produzindo narrativas curtas de boa qualidade por aqui. Não sem tempo, a SecultCE editará em breve edição completa dos contos do saudoso Moreira Campos, trazendo inclusive seu livro inédito A Gota Delirante. Em agosto próximo, o nosso maior contista vivo, o oitentão Caio Porfírio Carneiro, lançará em Fortaleza (comemorando 50 anos de sua estreia com o já clássico “Trapiá”) sua nova coletânea: Veredas da Caminhada.

      (Caio Porfírio Carneiro)