quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NENHUM DE NÓS (Pedro Salgueiro para O POVO)

(André Kertész) 

Quantos carros neste momento atropelam, arrastam, esfolam alguém que está vivo? E em quais lugares do mundo acontece tal fato neste exato instante? Todos tão iguais, tão diferentes — a velhinha morta ao atravessar a rua para comprar fósforos, uma criança que parou sua alegre corrida atrás da bola fujona, um homem forte colhido na linha-férrea depois de ter recebido todo seu salário, a família que foi perder dois de seus membros na saída triunfal de um feriado na praia, os dois jovens esmagados em plena parada de ônibus enquanto namoravam — todos no mesmo instante e em todas as partes do mundo: tão diferentes e tão iguais.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Das Vantagens de Ser Bobo (Clarice Lispector)

     (Clarice menina, ainda no Recife)



Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PECHISBEQUE

    (André Kertész)

Uma nova revista vem surgindo para fazer companhia à leva de boas publicações que existem hoje no Ceará (quem ainda não deu uma lida que seja nas revistas Aldeota, Arraia Pajeurbe, Canto de Iracema, Caos Portátil, Corsário, Espiral, Mambembe, Para Mamíferos, Pindaíba e várias outras? Sem falar nas mil e uma que circulam na internet, muitas vezes desfarçadas de blogs!?).
A nova PECHISBEQUE vem capitaneada pelos jovens escritores Edílson Pereira, Madjer Pontes e Nathan Mattos, que prometem outros números, com novos (novíssimos!!!!) escritores...
Mas, sem o ranço dos que se encastelam em panelinhas geracionais, vêm buscando diálogos com as diversas gerações que atualmente fazem a literatura em nossa terrinha.
Dêem uma olhada nela aqui, depois divulguem entre os amigos:



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O QUE NÃO ME FALAM... (de Pedro Salgueiro para o jornal O POVO)


(Dalton Trevisan e o artista plástico Poty bem jovens) 

O mestre Dalton Trevisan (o mais recluso e misterioso escritor brasileiro) costuma escrever referências autobiográficas camufladas em seus contos: no meio de um diálogo aparentemente banal, não raras vezes no próprio título da história, ou mesmo em “orelhas” não assinadas de seus primeiros livros, ele dá pistas de suas leituras, de suas fontes históricas e literárias, até de seus métodos para apreender suas famosas narrativas, de como as escreve, e não raramente em frases cheias de ironias e “cascas de bananas” que só quem conhece muito bem sua obra vai decifrando aos poucos.

MIA COUTO: Murar o medo

(Mia Couto)

Temos vivido cada vez mais em Cidades de Muros (como chama a antropóloga Teresa Caldeira no seu importante livro sobre Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo), em Fobópoles (para usar a expressão do brilhante geógrafo Marcelo Lopes de Souza em livro homônimo, de 2008, sobre a organização da cidade em torno do medo, implicando a consequente militarização da vida urbana), em distopias urbanas que vão se tornando reais, pautadas pela hipertrofia dos muros da segregação socioespacial, do medo, do vigilantismo e dos aparatos de repressão (oficiais, não-oficiais ou um misto de ambos, como fica claro no caso das milícias no Rio de Janeiro).Nesse sentido, em tempos de discussão sobre a presença da PM nos campi universitários (da UnB e da USP, em especial, devido a acontecimentos recentes), é valiosa para o debate a contribuição desta excelente palestra de um dos melhores escritores vivos da língua portuguesa, Mia Couto:“Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. (…) Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de ‘eles’”.Em outras palavras, o caminho proposto pelo escritor moçambicano, assim como por Teresa Caldeira e por Marcelo Lopes de Souza, consiste em apostar na construção do direito à cidade.
Eis o texto da íntegra dos seus sete minutos de fala (retirada daqui):

O QUE PENSO DO FACEBOOK (por Theófilo Silva)

  Reprodução


Com certeza nenhum dos brinquedos criados pela revolução digital teve um número de adeptos nem fez um sucesso tão grande quanto o Facebook. O Site veio para resolver as frustrações de todos e acabar com a figura do anônimo na multidão. Agora todo mundo é artista, com direito de mostrar a cara e ter a vida alardeada. O desejo de ser amado – principal necessidade do ser humano – está agora saciado. Diga o que pensa, sente, ama, odeia, enfim, conte sua vida para todo mundo. Diga tudo, menos a verdade.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Sertão Kafkiano de Pedro Salgueiro (em "Inimigos", por Alfredo Monte)



“Foi assim de repente, quando menos se esperava (em plena tarde morna) o sol tornou-se pálido, para sumir logo em seguida. O povo ainda não havia acabado de se assustar—ouvimos no meio da escuridão um bater de asas atravessando o vilarejo, como se um bando de pássaros saísse em revoada. Um pouco antes de os moradores da vila abandonarem suas casas em grande alvoroço, os bichos já alarmavam o acontecido: galinhas cacarejavam, galos cantavam em desespero, porcos fugiam pelas ruas atropelando as pessoas…