quinta-feira, 14 de março de 2013

SONETO PARA O POETA FRANCISCO CARVALHO (por Sânzio de Azevedo)

(Francisco Carvalho)
(Sânzio de Azevedo)


Dos tempos de menino te ficaram
as tardes de sol quente onde os lamentos
dos velhos bois que a morte ruminavam
se esvaíam nas túnicas dos ventos.

Na gleba de teu pai ainda há frutos
das árvores regadas pelos sonhos;
os alpendres, porém, e os altos muros
não deixaram vestígios nem escombros.

Mas tens o verso, com que todo dia
fazes viver um mundo de utopias
com a antiga crença de um profeta hebreu.

E vês que a hora do poema é a hora da lavra
em que ficas à espreita da palavra
que há de queimar como o êxtase de Deus

                                                    

* Soneto copiado das páginas 66-7 do livro, de Sânzio de Azevedo, Cantos da Antevéspera. Fortaleza: UFC - Casa de José de Alencar, 1999.

                                                                          

quarta-feira, 13 de março de 2013

O AMOR ENCONTRADO (por Luiz Ruffato)



(Ilustração: Rafa Camargo)


Quarto poema

No último dia do último ano da falseada infância,
vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,
não imaginava que, mil e quatrocentos quilômetros além,
tu já existias, forma entre formas, magros dedos
desenhavam efêmeros rabiscos na suada vidraça
de um inverno engastalhado na memória,
cicatrizes maculavam teu corpo inúbil,
pernas ocultavam silêncios entre os móveis,
noites aqueciam mágoas
aqueciam nódoas.

No último dia do último ano da falseada infância,
vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,
só eu não existia ainda. Tu me inventaste.



* Poema do mineiro radicado em São Paulo, Luiz Ruffato, publicado no jornal Rascunho, de Curitiba/PR: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-amor-encontrado/ .

ANTENADO (Pedro Salgueiro para O Povo)


Mesmo me considerando um sujeito medianamente “antenado”, de quando em vez me deparo com alguma informação que me deixa de “cabelo-em-pé” (não riam, é apenas uma expressão, como os hífens denunciam), tal o ineditismo da referida palavra ou frase em meus já peludos ouvidos (também o mesmo estranhamento se dá quando escuto alguém se referir a determinados cantores, artistas em geral, e até mesmo aos famosos por quinze minutos que um dia Andy Warhol nos preveniu).
Quando aqui cheguei do interior, inocente puro e besta (como bem cantou Raulzito), uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o uso de expressões, digamos, “moderninhas”; os garotos de minha idade eram “descolados” pra chuchu. E mal entrei em sala de aula, um de meus primeiros colegas me sapecou logo um “Fala aí, Barão!”. Quase saí correndo: eu que era no máximo versado em “Diz aí, bicho!”.

terça-feira, 12 de março de 2013

INFINITAS PRAIAS (por Nathan Matos)

A outra praia
Gustavo Nielsen
Editora Dublinense

Quando nos deparamos com algo que possui uma metamorfose declarada, como a do camaleão ou a da lagarta, ficamos a esperar o vislumbre que vem com aquele ato. Ao iniciar uma leitura sempre pensamos que algo tão revelador irá acontecer. Foi assim que me senti enquanto lia A outra praia, do escritor argentino Gustavo Nielsen.

 Os diálogos iniciais que não são, digamos, esclarecedores, fazem com que nos portemos de maneira diferente na poltrona. Gustavo Nielsen ilude-nos com sua narrativa muito bem arquitetada. É um escritor que se utiliza de flashbacks como poucos. Tal método pode ser tido como algo recorrente em romances de suspense, mas nem todos têm a capacidade de nos fazer exclamar ‘Eu não acredito!’.

DEU NA GAZETA (por Karla Gomes)




Da rua, ele assistia aos vizinhos tentando apagar as chamas que rapidamente consumiam a casa...

Mesmo antes dela, ele soubera que havia algo diferente. O corpo, o cheiro, o gosto, tudo nela estava diferente. A textura da pele, do cabelo eram outras. 

Aquela não era a mulher de sempre. Alterara-se.

Aos poucos, fora impondo-lhe limites, oferecendo-lhe outros mimos.

Ele, por sua vez, resignara-se, até sua paciência sucumbir ao estridente choro de bebê.

Não aceitou a divisão.

O resto foi notícia de jornal.



* A autora é cearense de Crateús - copiado dos blogs:
SABi - sabicrateus.blogspot.com
ALC - academiadeletrasdecrateus.blogspot.com

 

SANTA IGNORÂNCIA (por Theófilo Silva)



As especulações da imprensa acerca da renúncia do papa Bento XVI, bem como do conclave e do cardeal que poderá sucedê-lo, demonstram uma gigantesca ignorância de como funciona a igreja. O cerne das notícias é de que o novo papa deve ser brasileiro, africano, novato, ou de um país com maioria católica. Para eles, a lógica tem que ser a mesma que rege a política, tudo tem que ser feito de forma “democrática”. Santa ignorância!

A Igreja católica representa o status quo, uma instituição de quase dois mil anos de existência que foi se fragmentando ao longo do tempo, sendo dividida em várias outras seitas e religiões cristãs. Mas que, ainda assim, detém um número de fiéis que chega perto de 20% da população mundial. Se contarmos apenas com o ocidente, esse percentual pode chegar a 40%.


sexta-feira, 8 de março de 2013

EUGÊNIO LEANDRO (por Danilo Castro - Jornal O Povo)

Gênios da raça 08/03/2013 (Jornal O Povo) 

Mansidão da terra

Da seca de 1958 em Limoeiro do Norte à militância na Fortaleza dos anos 1980, o músico e escritor Eugênio Leandro rememora os caminhos que escolheu trilhar
    EDIMAR SOARES
    Eugênio Leandro: "Minhas conquistas foram por causa dos amigos"
    Numa manhã quente, encandeada pela luz refletida do mar, aconteceu o encontro. Olhando para o Estoril fechado, o músico e escritor Eugênio Leandro se desmancha em saudosismo. “Foi aqui que tudo começou. Aqui lancei todos os meus discos”. A Praia de Iracema é um dos recantos mais amados do telúrico irremediável. Lugar de plena efervescência artística durante a década de 1980. A caminhada pela rua dos Tabajaras foi marcada de boas lembranças.

    

    Fugindo da seca de Limoeiro do Norte, o pai e a mãe de Eugênio o fizeram nascer em Fortaleza, mas, antes mesmo de completar um ano, o menino retornou ao berço interiorano devido a uma proposta de emprego que o pai recebeu. “Eu era o ‘menino de Fortaleza’, as pessoas achavam isso importante, mas eu não sabia o que era aquilo, ficava incomodado”. Somente seis anos depois, ele visitou a Capital pela primeira vez. “Papai me levou pra ver o mar do Passeio Público. Foi um encantamento tão grande”, lembra, como se a maré verde brotasse dos próprios olhos.


    quinta-feira, 7 de março de 2013

    RECORDANDO FRANCISCO CARVALHO EM SEUS 72 ANOS (por Mailma de Sousa)

     
     


     

      Fortaleza, Ceará - Quinta-feira 17 de junho de 1999


    Ao pastor dos dias maduros
    Uma homenagem aos 72 anos do poeta Fancisco Carvalho


         Agora, quando, além de já ter lido toda a sua obra poética mais seus dois livros de exercícios literários, Francisco Carvalho, escrevi demoradamente, por não saber fazê-lo de modo sintético, como exigem os tempos... escrevi demoradamente minha análise literária, pronta sobre sua vasta poesia, compreendido o ensaio nas três partes com as quais desejei mesmo concebê-lo, longo percurso que às vezes se tornou difícil realizar, em função de algumas adversidades, porém aprontou. Afinal, posso lhe dizer que aprontou. E, aos seus 72 anos (11 de junho de 1999), tenho meu coração mais acelerado pela emoção de relembrar que num domingo, 19 de maio de 1996, afligi-me muito pelo fato de, tendo lido, naquele dia, seu primeiro livro que me deram a conhecer, “Rosa dos Minutos” (1996), adiamento atribuído não sei a que, pois lhe digo, poeta, que me inquietei demais naquela data, que já completou três anos, porque não alcancei o que li, tendo assim, confesso, guardado imediatamente este e mais os seus “As Visões do Corpo (1984), “Barca dos Sentidos” (1989), “Exercícios de Literatura (1990), “Crônicas das Raízes” (1992), “O Tecedor e Sua Trama” (1992), “Sonata dos Punhais (1994), “Galope de Pégaso (1994), “Textos & Contextos (1995) e mais uma fotocópia de “O Tempo e os Amantes” (1966), todos um presente valioso que tive o privilégio único de receber. Todos guardados ainda por mais de seis meses após aquele maio, livros indistintos entre outros. E como eu não identificava Francisco Carvalho entre Camões, Pessoa, Drummond, Bandeira, João Cabral, Mário Quintana, Vinícius e mais tantos poetas do Ser, dispostos na estante? Pois lá estavam todos e você ainda indiferenciado, meu poeta! Hoje penso que parece que somente para mim.

    quarta-feira, 6 de março de 2013

    EM TOM MENOR (Pedro Salgueiro para O Povo)

     

    FRANCISCO CARVALHO

    Morreu Francisco Carvalho, um dos maiores poetas não apenas do Ceará, mas do Brasil. Morreu de maneira discreta, sem alardes e gritantes sofrimentos, assim como sempre viveu, em seu canto, quieto...
    Conheci o poeta, que nasceu em Russas e veio jovem estudar e trabalhar no comércio de Fortaleza, quando ele ainda dava expedientes na Reitoria da UFC, levado pelo amigo comum Sânzio de Azevedo; lá voltei diversas vezes, sozinho mas principalmente acompanhado de alguns escritores também conhecidos dele ou que o queriam conhecer. O ritual era quase sempre o mesmo, levantava-se para apertar mãos, sentava-se tímido, comentava (quase sempre elogiando os interlocutores; fazia questão de recordar características do autor presente, mesmo quando apenas um jovem iniciante, de quem havia lidos às vezes poucos poemas) sobre literatura e descambava invariavelmente para a situação política do país, destilando alguns comentários ácidos e desesperançados sobre o Brasil e seus políticos.

    terça-feira, 5 de março de 2013

    VARIAÇÕES SOBRE A MORTE (Francisco Carvalho)


    


    Quando o homem perde
    o primeiro fio de cabelo 
    começa a dialogar com a morte.

    A morte, ausência 
    de todas as sensações,
    é a mais ostensiva das presenças.

    Ninguém consegue fugir da morte
    pela simples razão de que 
    somos hospedeiros dela.

    A morte chega, apaga
    a luz dos teus olhos e acende
    os seus negros castiçais.

    Algum dia te visitará
    uma sombra de olhos de areia
    e bruscamente cerrará tuas pálpebras.

    Morte, ó ceifeira veloz.
    Quantas são as espigas 
    que abastecem o teu celeiro?