(Mia Couto)
Temos vivido cada vez mais em Cidades de Muros (como chama a antropóloga Teresa Caldeira no seu importante livro sobre Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo), em Fobópoles (para usar a expressão do brilhante geógrafo Marcelo Lopes de Souza em livro homônimo, de 2008, sobre a organização da cidade em torno do medo, implicando a consequente militarização da vida urbana), em distopias urbanas que vão se tornando reais, pautadas pela hipertrofia dos muros da segregação socioespacial, do medo, do vigilantismo e dos aparatos de repressão (oficiais, não-oficiais ou um misto de ambos, como fica claro no caso das milícias no Rio de Janeiro).Nesse sentido, em tempos de discussão sobre a presença da PM nos campi universitários (da UnB e da USP, em especial, devido a acontecimentos recentes), é valiosa para o debate a contribuição desta excelente palestra de um dos melhores escritores vivos da língua portuguesa, Mia Couto:“Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. (…) Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de ‘eles’”.Em outras palavras, o caminho proposto pelo escritor moçambicano, assim como por Teresa Caldeira e por Marcelo Lopes de Souza, consiste em apostar na construção do direito à cidade.
Eis o texto da íntegra dos seus sete minutos de fala (retirada daqui):