quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

MOREIRA CAMPOS (Pedro Salgueiro para O POVO)


(Moreira Campos e Dna. Zezé)


Conheci primeiro Moreira Campos de livros, na primeira metade dos anos 80 do século XX; quase uma década depois é que fui ter o primeiro contato pessoal com ele. Eu ainda fazia Agronomia na Universidade Federal do Ceará e morava na Residência Estudantil ali na Pracinha da Gentilândia; com o tempo fui fazendo amizade com estudantes de Letras e aumentando meu gosto pela literatura (apesar de adorar livros desde pequeno). E foi numa das minhas andanças pelos sebos atrás de Gabriel Márquez, Júlio Cortazar e Juan Rulfo (um livro novo na época era um sonho impossível, lia-se muito emprestado de amigos e bibliotecas, vivíamos roubando exemplares das livrarias) que me deparei com seu A Grande Mosca no Copo de Leite e só o larguei quando uma semana depois encontrei Os Doze Parafusos numa calçada da Rua Pedro I, entre revistas e best sellers. Dali em diante passei a ser seu leitor fiel, e lembro que tremi quando folheei o belo volume d’O Puxador de Terço (ainda hoje o meu preferido entre seus poucos livros editados).


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Música Popular Romântica", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO

                                                      (Genival Santos)


Claro que se pode conhecer bem um sujeito pelos seus gostos e manias; mas alguém menos simplista poderia argumentar que também se poderia entender qualquer um somente pelas coisas de que esse tal não gosta, odeia, faz desdém. Claro: pode-se ver uma pessoa (nunca tudo, ninguém nunca se deixa conhecer inteiramente, não é mesmo!?) por vários ângulos, diretos, indiretos, invertidos...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"Quando o Amor é de Graça XI: Confissão à Forca", de Raymundo Netto para O POVO (8.2)



Por saber que a saudade traga a gente, o tempo nos ensina que a gente traga sempre uma saudade.
Desde pequeno tenho como regra a saudade de tudo, mesmo daquilo recomendável lançar do parapeito da janela mais distante. Chega-me de Neruda: “saudade é sentir que existe o que não existe mais”. E existo, tão saudoso de um jeito, a sentir saudades até dos meus erros. Sim, por que não? Errei muito na vida. Erros tão conscientes e queridos a não me deixar sequer sombra de arrependimento. Aliás, meus erros me são tão sinceros que sou de não poupar oportunidade de sempre contá-los, no afã de mostrar-me às pessoas para que não se iludam a meu respeito, me entendam e não esperem mais de mim. Afora do que veem, asseguro, sou apenas fama e fantasia.
Mas há, em feliz, quem inda goste de mim assim, sem exigir-me de mais nada. Outros, pensam — e expressam — o que poderia melhorar para estar bem, quase me desenhando outro. No entanto, haveria de haver também aqueles que me têm a mais cordial antipatia e descrédito.
Tenho assim, outra fragilidade a confessar. Creio, e creio de verdade: as pessoas que me gostam são bonitas, simples e especiais. Ao contrário, quem não gosta de mim é porque embriaga-se no seu fel, tem mau caráter e espírito de porco (com todo respeito ao pobre animal). Faz, de fato, um grande favor em revelar-me o seu não-ter-o-que-fazer espiritual.
Mesmo assim, também a estes, curiosamente leitores fieis — sempre esperando escorregões de vírgulas (essa coisinha gibosa, enfisematosa e de baixa autoestima), — denuncio, aqui, minhas incorrigíveis falhas: Não gosto de aparecer, nem de títulos, muito menos crachás. Detesto multidões e falar em público. Sou gago, cheio de tiques, distraído e enjoado. Incompetente nas coisas mais simples, não sei coisas demais. Tenho problema com relógio de ponto e com extratos bancários. Gosto de letras, não de números, por isso não me adapto ao dinheiro. Guardo coisas velhas que não têm valor nem interessam a ninguém. Gosto de andar de ônibus e a pé. Adoro roupa muito usada (as primeiras da gaveta), filmes em preto e branco e mesa de bar de esquina. Não sei nome de carros, não como ao lado de quem não gosto, nem danço coisa nenhuma, além de ter passado da idade de ter que ouvir aquela música que todos ouvem apenas porque é o sucesso do momento. E, para concluir, a mais grave: acredito serem possíveis muitas coisas que todas as outras pessoas já sabem, de berço, que não dão certo, mas eu insisto nelas mesmo assim.
Machado de Assis, ao acaso, concluiu: “Um dos defeitos mais gerais entre nós é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério”.
Daí, não me iludo com a vida alheia. Quando falam com muito entusiasmo de personalidades, de seu progresso profissional ou afetivo, olho sempre com desconfiança. Quando me perguntam quem eu gostaria de ser, não cito os grandes nomes, mesmo aqueles cuja plateia ecoa em idolatria, admiração e amor. Ora, cada qual suporta uma sua dor, mas nem sempre ela é sentida pelos outros a apenas enxergar o que se é permitido no olhar da conveniência de todo sempre e de todas as gentes. Não, não gostaria de ser ninguém, não tenho vontade de ser nem de ter nada dos outros. Por outro lado, se me perguntassem: “Quem eu não gostaria de ser”, a resposta pularia do trampolim da língua: Raymundo Netto, esse eu conheço bem. Deus me livre!
De assim, continuo a (prot)agonizar o papel desse sujeitinho ridículo, como as cartas de amor de Pessoa, com a fria esperança de uma dia liberdade, de uma tarde compreensão e de a noite ser em silêncio.
“Eu sei que tudo é como o fumo leve:/Foge... mas, porque a vida seja breve, /Há sempre um dia mais para quem ama”*.

(*) Mário da Silveira (1899-1921)

Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ORIGENS (Pedro Salgueiro para o jornal O POVO)



Dentro da comemoração dos 70 anos de minha mãe Geni, planejamos (eu e o primo Mileno) uma viagem aos vilarejos onde ela e, claro, os irmãos e meus avós maternos nasceram e viveram suas infâncias, na primeira metade do século passado.