terça-feira, 8 de maio de 2012

EMMANUEL BOVE DESNUDOU A TRANQUILA DESGRAÇA HUMANA (por Amilcar Bettega)





Foi durante um período de férias em Fortaleza, na casa do meu querido e sempre atento amigo, o escritor Pedro Salgueiro, mas não lembro a circunstância exata, que ele me falou de Emmanuel Bove. Na verdade o Pedro não falou de Emmanuel Bove (1898-1945), apenas mencionou seu nome, assim de passagem, e, gentil como todos os cearenses que conheço, além de já ter me emprestado seu apartamento, no final da estadia ainda me ofereceu um presente inestimável para quem, assim como você, ama a literatura: um livro, no caso, Meus amigos, de Emmanuel Bove - e com esse livro a possibilidade de descobrir um autor raro, de altíssimo nível.



O adjetivo raro, aqui, cabe bem. O verbo descobrir também. E mesmo a maneira quase casual com que o nome de Emmanuel Bove foi inserido na nossa conversa, lateralmente, de passagem, como que por acidente.


DA MEMÓRIA DOS RELÓGIOS (por Pedro Salgueiro)

 


aos bairros José Bonifácio e Parque Araxá, hoje quase esquecidos


Se despertássemos um dia ouvindo os ruídos da manhã de tempos atrás, certamente tomaríamos um susto. O ruge-ruge do mundo, os barulhos cotidianos vão mudando com o passar dos anos. Os roncos de motores dos automóveis, os diálogos televisivos na casa vizinha, dariam lugar aos pregões de rua, às valsinhas chiadas num rádio e às conversas de senhoras lavando roupas.

POEMAS - ROBERTO BOLAÑO (por Eric Dantas)







Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
Carlos Drummond de Andrade, “O lutador”


Todo tradutor é um leitor infiel.
Provérbio árabe


Poemas escolhidos
Roberto Bolaño

Poemas extraídos de Los perros románticos
Zarautz: Editora Fundación Social y Cultural Kutxa, 1995.

Tradução de Eric Dantas. São Paulo, 2009.


1. O burro

Às vezes sonho que Mario Santiago
Vem me buscar com sua moto negra.
E deixamos a cidade para trás e à medida
Que as luzes vão desaparecendo
Mario Santiago me diz que se trata
De uma moto roubada, a última moto
Roubada para viajar pelas pobres terras
Do Norte, em direção ao Texas,
Perseguindo um sonho inominável,
Inclassificável, o sonho de nossa juventude,
Quer dizer, o sonho mais valente de todos
Nossos sonhos. E de tal maneira
Como negar-me a montar a veloz moto negra
Do Norte e sair cortando por aqueles caminhos
Que antigamente percorreram os santos do México,
Os poetas mendicantes do México,
Os sanguessugas taciturnos de Tepito
Ou Colonia Guerrero, todos no mesmo caminho,
Onde se confundem e mesclam os tempos:
Verbais e físicos, o ontem e a afasia.



quinta-feira, 8 de março de 2012

DONA ZENAIDE (Pedro Salgueiro para O POVO)


Asseverou, com naturalidade, que não carecia eu plantar todas aquelas mudas, quando eu quisesse sentir o cheiro da Bunina era só vir ao seu jardim. Foi a primeira frase dela que senti certa intenção de me dar uma lição; não uma lição de mestre de alta escola, universidade, desses cheios de empáfia e poses; mas, sim, lição de vida, cálida, sempre cercada de gestos e cuidados. Tirei, prático que sou em lições de vida, que não devemos querer ter tudo, muitas vezes pedir por empréstimo até dá motivo para uma boa prosa com alguém.