segunda-feira, 18 de junho de 2012

JAMES JOYCE segundo Alfredo Monte

A terceira margem do riverrun joyceano: uma nova tradução de “Ulysses”



“Há o terrível risco da solenidade, que transforma tanto leitores quanto escritores em grandes carrancudos. Joyce escreveu Ulysses para entreter, para realçar a vida, para dar júbilo. É fácil demais destruir a vida alada, não tanto prendendo-a quanto ruminando-a.”(Anthony Burgess, Homem Comum Enfim)

I
Não pensei que viveria para ver uma terceira tradução de Ulysses e pouquíssimos anos após a segunda (a de Bernardina da Silveira Pinheiro, lançada em 2005, passados 40 anos da primeira, a de Antônio Houaiss). O autor dessa façanha, que acontece no 90º. aniversário do romance de James Joyce (1882-1941), é um jovem curitibano (nasceu em 1973), Caetano W. Galindo, que consegue transpor para a nossa língua um livro exigente sem torná-lo quase intragável (como fez Houaiss, respeitando-se o seu tour-de-force) nem enfraquecê-lo fugindo das soluções mais difíceis (como fez Bernardina, idem). A meu ver, finalmente Ulysses e o leitor brasileiro encontram-se de fato.

O BIZARRO E O POÉTICO EM TÉRCIA MONTENEGRO (por Rinaldo de Fernandes)

É da força dos contrários que Tércia Montenegro extrai a substância de seus contos em O tempo em estado sólido, livro vencedor do Prêmio Governo do Estado de Minas Gerais 2010, publicado agora, em 2012, pela Ed. Grua, de São Paulo.

Tércia é uma contista tchekoviana. Pouco enreda e extrai das situações narradas sentidos fortes, profundos, da natureza humana. Consegue em poucos passos jogar o leitor na interioridade intrincada de seus personagens.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

O CONTO NA TERRA DO CONTO (Pedro Salgueiro para O POVO)

 (Vidas Marginais, de Moreira Campos)
O conto é o gênero literário mais cultuado no Ceará (alguém já afirmou que temos mais contadores de histórias que bodegueiros). Rara foi a geração que não nos deu pelo menos meia dúzia de bons contistas. Mas raros são os excepcionais, visto que o gênero é difícil, escorregadio, enganoso, muitos acham que basta contar uma anedota interessante, alinhavar bem um caso curioso, para obter êxito.

(Moreira Campos)
Atualmente temos pelo menos quatro gerações produzindo narrativas curtas de boa qualidade por aqui. Não sem tempo, a SecultCE editará em breve edição completa dos contos do saudoso Moreira Campos, trazendo inclusive seu livro inédito A Gota Delirante. Em agosto próximo, o nosso maior contista vivo, o oitentão Caio Porfírio Carneiro, lançará em Fortaleza (comemorando 50 anos de sua estreia com o já clássico “Trapiá”) sua nova coletânea: Veredas da Caminhada.

(Caio Porfírio Carneiro) 


Pequeno projeto de uma cidade futura (Conto de Ricardo Piglia)

 
 
 
Pequeno projeto de uma cidade futura*
Ricardo Piglia

Título original: Pequeño proyecto de una ciudad futura

* Publicado en El final del eclipse. El arte de América Latina en la transición al siglo XXI, José Jimenes (comp.)
Madrid: Edición Fundación Telefónica, 2001.

Tradução de Eric Dantas. São Paulo, 2010.


Muitas vezes ouvi falar do homem que numa casa do bairro de Flores esconde uma réplica de uma cidade em que trabalha há anos. Construiu-a com materiais mínimos e numa escala tão reduzida que podemos vê-la de uma só vez, próxima e múltipla e como distante na suave claridade da alvorada.

A cidade está sempre distante e essa sensação de distância de tão próxima é inesquecível. É possível ver os edifícios, as praças e as avenidas e ainda o subúrbio que declina para o oeste até perder-se no campo.

Não é um mapa, nem uma maquete, é uma “máquina” sinóptica; toda a cidade está aí, concentrada em si mesma, reduzida à sua essência. A cidade é Buenos Aires mas modificada e alterada pela loucura e pela visão microscópica do construtor.