quinta-feira, 29 de novembro de 2012

JOSÉ PAULO PAES por RODRIGO NAVES



Um homem como outro qualquer

Desprezando a ostentação de brilhantismo, José Paulo Paes escrevia para pessoas que, como ele, não tinham formação universitária. Trabalhava numa perspectiva na qual a cultura mantém a vocação universalista e democrática.
por Rodrigo Naves

José Paulo Paes era um homem avesso a ênfases no escrever, no falar e no proceder. Detestava chamar a atenção e seu comportamento discreto era, num homem constante, talvez a constância predominante. Em situações sociais, parecia se ocupar sobretudo com sua bengala, girando-a lentamente diante dos olhos. Chegou mesmo a homenageá-la:

contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MINICONTOS (Pedro Salgueiro para O POVO)


"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá" - Augusto Monterroso, "O dinossauro"
Talvez por preguiça, sempre tive fascínio por textos curtos. Frases aparadas até quase o miolo. Gracilianos, Rulfos, Moreiras e João Cabrais limando adjetivos. Procurando substantivos que dispensem adereços, penduricalhos. Nenhum preconceito contra os caudalosos rios Euclidianos, Proustianos, Joyceanos, Roseanos. Apenas predileção e pronto. Ponto.

Sempre desconfiei que nós, os pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário no qual vamos nos expressar. Mas ele, irremediavelmente, nos escolhe. Tenho certo amigo que até pra me passar um número de telefone conta seu dia inteirinho. Outro, inquirido, me deixa apenas fragmentos de suas intenções. Claro que alguns podem, e até devem, ir contra a corrente. Deslizar rio acima, olhos estufados de lama. Alma pesada, mas satisfeita.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

AS RECEITAS REVISITADAS: QUEM PROVA? (por Ruy Vasconcelos)



As receitas revisitadas: quem prova?

miolo de pote, caldo de galinha, muito pão e pouco vinho, abobrinha, feijão com arroz, farinha do mesmo saco, angu de caroço, zona do agrião, caranguejo em mês que não tem r, feijão de chegou mais um, bolo de enganar tolo, o que cair na rede, favas contadas
escolha sua receita de hoje. consciente. afirmativo. não como devoção a uma dessas estúpidas baladas pop, que passam o recibo de nosso capricho extremo.
e certa debilidade mental.

(mas, que mal lhe pergunte: quem vive sem elas?)

* Copiado do seu blog http://afetivagem.blogsppot.com.br//

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

FINADOS (por Pedro Salgueiro)


O juremal cinzento, a terra esturricada, o sol amarelado de queimada eterna já prefiguram a seca cruenta nem bem entramos na estrada de Canindé. Mas a quantidade e a variedade dos automóveis nos segredam que ainda permanecemos com um pé na capital. E só quando saímos da terra de São Francisco em direção a Tamboril é que realmente nos sentimos dentro desse imenso país chamado Sertão.