sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O MUNDO COBRETO DE PENAS (publicado no jornal O POVO em 23/11/11)


O sujeito vai envelhecendo e, crente de que a velhice por si só vai lhe dando sabedoria, passa a criar para si inúmeras (e inúteis) teoriazinhas. Uma delas, e das mais bestas, me assegura que os amigos e familiares se dividem em dois grupos distintos e opostos: O dos que adora o fim de ano – são os “puros de espírito”, os que tiveram uma infância feliz, os que sentem saudades de tudo (especialmente da meninice); estes mal veem chegar o novembro e já adquirem um estranho brilho nos olhos, riem (e choram) por qualquer coisa, ficam mais pacientes e ternos, passam a se preocupar com coisas bobas, como lavar o cachorro, fazer listas de presentes. Mas não só isso: revivem o ano todo de modo mais otimista: fazem balanços, estilam promessas, enfim, escrevem de letra vermelha na agenda frases edificantes que sugerem a si e ao mundo que se tornarão pessoas melhores e mais felizes. O segundo grupo detesta qualquer rito de passagem, seja ele religioso ou mesmo o da mera marca do calendário – são os de “almas pesadas”, os que carregam nos ombros o peso do mundo, os que têm aftas no coração: estes só veem interesses comerciais nas mil luzinhas de Natal em cada janela de subúrbio, apenas vislumbram hipocrisias nos cumprimentos risonhos e nos apertos de mão entre vizinhos e colegas de trabalho: repassam em suas mentes as infinitas mazelas do ano que passou, as inúmeras tristezas que carregam no coração, as matrículas do colégio dos filhos, o negrume que a luz deixa por trás de qualquer objeto.

E para tornar mais baratas as muitas teoriazinhas que me povoam a desocupada cabeça chego rapidamente à conclusão de que o mundo se divide entre os otimistas e os pessimistas.

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Entre os bobões românticos e os chatos realistas.

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Entre os Fabianos e as Sinhás Vitórias. Entre as Cachorras Baleias e os Soldados Amarelos*.


* Referências a personagens do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que inicialmente se chamaria O Mundo Coberto de Penas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

SERTÃO (Pedro Salgueiro para O POVO, dia 09/11/11)


 (Tamboril vista da Igreja de Sto. Anastácio)

"Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar"
Patativa do Assaré/Luiz Gonzaga – Triste Partida

Fui, sou e serei apenas um matuto exilado na cidade grande. Vim aqui apenas para sobreviver, terminar os estudos, ganhar a vida, criar os filhos, como muitos irmãos que foram para o Norte da borracha, para o Oeste desbravar fronteiras, para o Sul futurar sustento.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os caça-fantasmas (por Nélson de Oliveira)


“Correio Braziliense, domingo, 26 de agosto de 1984. Engenheiro é encontrado morto. O engenheiro e escritor Samuel Rawet, de 56 anos, foi encontrado na noite de sexta-feira morto em sua residência, em Sobradinho, vítima de aneurisma cerebral. Segundo o laudo médico, Rawet já estava morto há quatro dias.” Esse fragmento de uma página policial e outros comentários registrados de maneira apaixonada estão na Rapsódia a Samuel Rawet, do Ezio Flavio Bazzo. Detalhe: o Ezio não conhecia quase nada do engenhoso engenheiro, quando sem mais nem menos decidiu rastrear o paradeiro do seu túmulo desaparecido. A investigação durou três meses. A investigação rendeu dezenas de anotações, anedotas, citações, divagações, rápidas entrevistas, recortes de jornal. Reunidas, essas anotações, anedotas, citações, divagações, rápidas entrevistas e esses recortes de jornal transformaram-se num livro de quase cem páginas. O porteiro do prédio onde Rawet morou antes de se mudar para a casa de Sobradinho: “No último ano em que viveu aqui, já estava completamente nervoso. Atirava ovos pelos corredores, falava sozinho e parecia muito agressivo. Devia ter hemorróidas, pois suas calças andavam sempre sujas no traseiro.” Dona Esmeralda, proprietária da casa onde o escritor foi encontrado morto: “Estava sentado no seu pequeno sofá, com uma tigela de sopa nas mãos. Quando os bombeiros arrombaram a porta e o viram, ficaram surpresos com a quantidade de velas e de pacotes de sopa Knorr espalhados pela casa.” Não resta dúvida. A história a seguir é a de um fantasma. E de seus caçadores. De um fantasma que teve o azar de desencarnar no mesmo instante que o do Truman Capote. Em vez do merecido Show de Samuel, tivemos na tevê e nos grandes jornais apenas o Show de Truman.



ABRIR MÃO (por Ronaldo Monte)


Num gesto do mais autêntico autoritarismo, minha médica mandou a atendente medir a circunferência da minha barriga e tomou a decisão unilateral de me decretar obeso. Claro que protestei veementemente contra o reconhecimento científico do meu visível arredondamento. Mas no fundo eu já vinha achando que estava na hora de abrir mão de alguns prazeres para poder voltar a encarar sem medo a minha parte do guarda-roupa. Além disso, já andava chateado com a dificuldade em executar certos movimentos, fazer um mínimo de força, sustentar o peso de alguns objetos.